Saúde mental, trabalho e identidade: o que a NR-1 nos diz às empresas — inclusive nos condomínios

FOTO: Magnific

Na quarta-feira, acordei acreditando que era domingo.

Não entendi por que meu marido havia saído da cama às 6h30 para passear com a Kiwi, nossa husky siberiana, nem por que o robô aspirador já estava limpando a casa tão cedo. Nada fazia sentido. Aos domingos, quando ele está de folga, costumamos permanecer mais um pouco na cama, desacelerar, começar o dia sem a urgência habitual da rotina.

Quando comentei que havia esquecido que ele estava de plantão naquele “domingo”, recebi uma resposta acompanhada de um olhar de espanto:

— Que domingo, amor? Hoje é quarta-feira.

Naquele momento, um turbilhão de pensamentos passou pela minha cabeça.

Sim, eu estava cansada. As últimas semanas foram intensas: muito trabalho, eventos, responsabilidades, noites curtas, decisões, prazos, demandas acumuladas. Nada exatamente fora da minha rotina profissional.

E talvez seja justamente esse o problema.

Como advogada que atua diariamente com gestão, conflitos, responsabilidades e tomada de decisões no universo condominial, conheço de perto uma realidade comum a síndicos, administradoras e empresas: a cultura da disponibilidade permanente. O celular nunca silencia completamente. As urgências raramente esperam o próximo expediente. Sempre há algo para resolver, responder, negociar, apagar ou prevenir.

Até que, um dia, uma quarta-feira começa a parecer domingo.

A saúde mental finalmente entrou na pauta — e isso importa

Minha reflexão ganhou ainda mais peso diante da atualização da NR-1, que ampliou o olhar sobre os riscos psicossociais no ambiente de trabalho e reforçou a responsabilidade das empresas na prevenção do adoecimento emocional.

A discussão é necessária.

Existem, sim, ambientes de trabalho genuinamente adoecedores. Assédio moral, pressão excessiva, jornadas incompatíveis, metas desproporcionais, ausência de limites claros, lideranças despreparadas, insegurança psicológica. Ignorar isso não é apenas um problema de gestão; pode se tornar um problema humano, jurídico, financeiro e institucional.

Os números mostram que o tema deixou de ser periférico. O Brasil vem registrando crescimento expressivo dos afastamentos relacionados a transtornos mentais, incluindo ansiedade, depressão, reações ao estresse grave e esgotamento emocional. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como um fenômeno associado ao estresse crônico no trabalho não administrado adequadamente.

A mensagem é clara: saúde mental deixou de ser assunto acessório.

Mas, enquanto refletia sobre a NR-1, percebi que talvez exista uma conversa ainda mais profunda acontecendo por trás da norma.

Quando o trabalho deixa de ser parte da vida e passa a ser a própria vida

Embora as empresas tenham responsabilidades inequívocas nesse cenário, há algo que ultrapassa os limites do ambiente corporativo.

Nós construímos uma cultura que colocou o trabalho no centro da existência.

Aprendemos a medir valor pessoal por produtividade. A associar descanso à culpa. A naturalizar agendas impossíveis. A responder mensagens fora de horário como prova de comprometimento. A admirar o excesso como símbolo de competência.

Não por acaso, frequentemente reconhecemos pessoas pela profissão antes mesmo de reconhecermos sua individualidade. É a Maria da farmácia, o João da empresa, a síndica, o advogado, o gestor.

Como se o cargo não fosse apenas uma função, mas uma identidade.

O filósofo Byung-Chul Han, no livro Sociedade do Cansaço, descreve uma sociedade em que as pessoas deixam de ser apenas exploradas por sistemas externos e passam a se autoexplorar em nome da performance, da eficiência e da produtividade permanente.

Talvez isso explique por que tantas pessoas não conseguem descansar sem ansiedade, desacelerar sem culpa ou existir plenamente fora do trabalho.

E o setor condominial conhece bem esse fenômeno.

Síndicos vivem sob cobrança constante. Administradoras lidam com múltiplas demandas simultâneas. Empresas enfrentam metas, responsabilidades operacionais e a pressão por eficiência contínua. Em muitos casos, a sobrecarga vai sendo absorvida silenciosamente até parecer parte natural do exercício profissional.

Mas não deveria parecer normal.

A NR-1 é mais do que uma obrigação legal

Existe uma leitura simplificada segundo a qual a NR-1 seria apenas uma nova exigência regulatória, mais um item de compliance ou um risco trabalhista a ser administrado.

Na minha percepção, ela representa algo maior.

Representa um convite — e talvez uma necessidade — de mudança de mentalidade.

Porque proteger a saúde mental não significa apenas criar protocolos internos ou revisar procedimentos documentais. Significa repensar a forma como organizações, gestores e profissionais se relacionam com o próprio trabalho.

Isso não reduz a importância do trabalho. O trabalho importa profundamente. Produz dignidade, propósito, pertencimento, autonomia e desenvolvimento.

Mas ele não pode ser o único lugar onde a vida acontece.

O sociólogo Domenico De Masi, autor de Ócio Criativo, defendia uma convivência mais equilibrada entre trabalho, vida pessoal, descanso, cultura, aprendizado e relações humanas. Não como oposição à produtividade, mas como condição para uma produtividade verdadeiramente sustentável.

Talvez essa seja uma reflexão especialmente importante para síndicos, administradoras e empresas.

Porque ambientes emocionalmente adoecidos geram consequências concretas: aumento de conflitos, queda de desempenho, absenteísmo, rotatividade, afastamentos, desgaste institucional e passivos jurídicos.

Mas, antes de tudo isso, geram pessoas cansadas.

Pessoas que começam a perder o espaço da pausa, da família, dos afetos, do silêncio, do tempo livre — e, às vezes, até da própria referência dos dias.

O que uma quarta-feira confundida com domingo me ensinou

A quarta-feira em que acordei acreditando que era domingo não foi um episódio dramático. Foi algo simples, quase banal.

E talvez seja exatamente assim que o esgotamento costuma se apresentar.

Silenciosamente.

Em pequenos sinais que aprendemos a normalizar.

Na sensação de estar sempre correndo. Na incapacidade de desligar. Na agenda que engole tudo o que existe fora do trabalho. Na falsa ideia de que suportar excessos é apenas parte inevitável do sucesso profissional.

A atualização da NR-1 chega em um momento importante porque nos obriga a discutir responsabilidades empresariais, gestão saudável e prevenção do adoecimento psicológico.

Mas talvez ela também nos convide a uma pergunta mais desconfortável:

Estamos trabalhando para viver ou estamos vivendo exclusivamente para trabalhar?

Para síndicos, administradoras, empresas e profissionais de todas as áreas, essa talvez seja uma das reflexões mais urgentes do nosso tempo.

Porque empregos mudam. Funções terminam. Cargos passam.

Mas pessoas continuam existindo muito além daquilo que fazem.

E talvez seja hora de lembrarmos disso antes que outra quarta-feira comece a parecer domingo.


(*) Cleuzany Lott é advogada, com especialização em Direito Condominial, MBA em Administração de Condomínios e Síndica Profissional. É Presidente da Comissão de Direito Condominial da 43ª Subseção da OAB-MG, em Governador Valadares, e 3ª Vice-Presidente da Comissão de Direito Condominial de Minas Gerais. Coautora do livro Experiências Práticas em Conflitos Condominiais, atua também como síndica, jornalista e palestrante, com foco na gestão condominial responsável, prevenção de conflitos e comunicação jurídica acessível.

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