Quando pensamos em tipos sanguíneos, logo lembramos dos grupos A, B, AB e O dos seres humanos. Os cães e gatos também possuem diferentes tipos sanguíneos. Essa característica é extremamente importante na medicina veterinária e pode salvar vidas em situações de emergência.
Em muitos casos, como um atropelamento ou uma grave hemorragia, a única forma de manter o animal vivo é realizando uma transfusão de sangue. Porém, para que esse procedimento seja seguro, o sangue do doador deve ser compatível com o do receptor.
Nos cães, o sistema sanguíneo é bastante complexo. Atualmente, são reconhecidos diversos grupos sanguíneos, conhecidos como DEA (Dog Erythrocyte Antigen). Entre eles, o mais importante é o DEA 1, que pode ser positivo ou negativo.
A boa notícia é que, diferentemente dos gatos, cães que recebem uma transfusão incompatível pela primeira vez geralmente não apresentam uma reação imediata muito grave. Isso ocorre porque eles normalmente não possuem anticorpos naturais contra outros tipos sanguíneos. No entanto, após essa primeira transfusão, o organismo passa a produzir anticorpos, tornando uma segunda transfusão incompatível extremamente perigosa, podendo causar destruição das células sanguíneas, choque e até a morte.
Por esse motivo, antes de qualquer transfusão, o médico-veterinário realiza testes para identificar o tipo sanguíneo e verificar a compatibilidade entre doador e receptor, procedimento conhecido como prova de compatibilidade.
Nos gatos, o cuidado precisa ser ainda maior. Eles possuem três tipos sanguíneos principais: A, B e AB. Diferentemente dos cães, os gatos já nascem com anticorpos naturais contra grupos sanguíneos diferentes do seu.
Isso significa que um gato do tipo B que receba sangue do tipo A pode apresentar uma reação gravíssima logo na primeira transfusão. Da mesma forma, um gato do tipo A pode reagir ao sangue do tipo B, embora geralmente de forma menos intensa.
Além desses grupos, pesquisadores identificaram recentemente um novo sistema sanguíneo chamado Mik, mostrando que a medicina veterinária continua descobrindo novas informações sobre a compatibilidade sanguínea dos felinos.
Outra situação importante ocorre logo após o nascimento dos filhotes. Em gatos, quando uma mãe do tipo B tem filhotes do tipo A ou AB, os anticorpos presentes no colostro podem destruir as hemácias dos recém-nascidos, causando uma doença chamada isoeritrolise neonatal, que pode levar os filhotes à morte se não for reconhecida rapidamente.
Assim como existem bancos de sangue para pessoas, também existem bancos de sangue para cães e gatos. Pets saudáveis podem ser doadores e ajudar a salvar a vida de muitos outros animais.
Em geral, os cães doadores devem ser adultos, saudáveis, pesar mais de 25 kg, estar com a vacinação e a vermifugação em dia e possuir bom temperamento. Já os gatos doadores também precisam estar saudáveis, pesar acima de aproximadamente 4,5 kg, apresentar exames negativos para doenças infecciosas e ser cuidadosamente avaliados pelo médico-veterinário. A doação é um procedimento rápido, seguro e realizado sob rigoroso acompanhamento profissional. Uma única bolsa de sangue pode beneficiar mais de um paciente, dependendo da necessidade clínica.
Os avanços da medicina veterinária tornaram as transfusões muito mais seguras. Hospitais e clínicas veterinárias utilizam testes específicos antes das transfusões, reduzindo significativamente o risco de reações adversas.
Embora muitos tutores nunca precisem enfrentar essa situação, saber que cães e gatos possuem tipos sanguíneos ajuda a compreender a importância dos bancos de sangue veterinários e da doação entre animais. Em momentos de emergência, esse conhecimento pode representar a diferença entre perder um companheiro ou oferecer a ele uma nova oportunidade de vida.
(*) Professora do curso de Medicina Veterinária da Unileste, mestra em Ciências Veterinárias, clínica e cirurgiã de cães e gatos. Instagram: @ptucunduva.






