A fé como encontro inevitável com o transcendente
O mundo acompanhou com surpresa e admiração um dos maiores símbolos do avanço científico e tecnológico da humanidade: o desenvolvimento da missão espacial Artemis II, parte do programa da NASA, que representa um novo marco na exploração lunar tripulada após décadas.
Uma missão como essa exige precisão, racionalidade e domínio técnico. Mas, por trás dos cálculos, encontram-se seres humanos, marcados por emoções, medos e questionamentos existenciais. A tripulação da missão foi composta pelo comandante Reid Wiseman; Christina Koch, a primeira mulher a viajar até a Lua; Jeremy Hansen, o primeiro canadense em uma missão lunar; e Victor Glover, o primeiro homem negro em uma missão lunar.
O destaque vai para esse último. Victor Glover é um astronauta aplicado, cristão convicto que vê sua missão como algo com significado maior, reconhecendo que, mesmo diante do mais alto avanço tecnológico, o ser humano continua dependente de algo maior do que si mesmo.
Tem sido atribuída a ele a célebre frase: “não há ateus no topo de foguetes”, uma adaptação de outra frase da época da Primeira Guerra Mundial: “não há ateus nas trincheiras”. Ainda que a frase não seja de Glover, a ideia de que “não há ateus no topo de foguetes” ecoa o testemunho de quem reconhece a dimensão espiritual do ser humano, mesmo em meio ao avanço científico.
Estar no topo de um foguete, deixar o planeta, voar ao redor da Lua, observar seu lado oculto, registrar o nascer da Terra no horizonte lunar e retornar, é um dos feitos mais impressionantes da história da exploração espacial. Mas também é confrontar-se com a possibilidade concreta da morte — e, ao mesmo tempo, com a imensidão do desconhecido.
É aí que surge a fé, no momento em que o cálculo cede lugar ao silêncio interior. A fé não surge como fraqueza ou medo, mas como reconhecimento de que há dimensões da existência humana que escapam ao controle; de que a vida, por mais planejada que seja, permanece envolta em mistério; e de que o destino não está inteiramente em nossas mãos. Assim, a fé se apresenta como um ato de confiança — não na ausência da razão, mas para além dela.
É nesse instante que o ser humano percebe sua pequenez diante da imensidão do universo e, quase que instintivamente, volta-se para algo maior do que si mesmo. E aí ocorre a entrega — seja por meio de uma oração silenciosa, de uma reflexão interior ou de uma confissão de fé, o ser humano encontra, mediante a fé, um ponto de encontro entre o humano e o divino.
Mas persiste a pergunta: o que a humanidade foi buscar tão longe, no topo do foguete? Na vastidão do espaço, onde a Terra se torna apenas um ponto distante, é possível encontrar Deus, que se revela por meio da criação. Ali a fé não diminui — ela se expande. E talvez seja justamente ali, mais próximo das estrelas, que o ser humano se recorda de sua origem e de seu destino, redescobrindo que, acima de qualquer conquista tecnológica, permanece a eterna busca por Deus.
(*) Pastor da Primeira Igreja Batista de Governador Valadares e presidente da Junta de Educação do Colégio Batista
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