Crises, Copa do Mundo e um teste de gravidez
Há exatos 20 anos, durante a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, minha esposa e eu vivemos uma das maiores crises do nosso casamento.
E não estou falando daquelas discussões comuns do cotidiano, resolvidas depois de algumas horas de silêncio e, quem sabe, um chocolate quente. Era algo sério. Profundamente sério.
Passamos um fim de semana praticamente sem nos falar. A situação parecia definida: ela voltaria para a casa dos pais, e cada um seguiria seu caminho, seus projetos e sua própria vida.
Tínhamos acabado de completar cinco anos de casados e, até então, jamais havíamos atravessado uma turbulência daquela magnitude.
Veio a segunda-feira.
Naquele dia, o Brasil enfrentaria Gana pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Expediente reduzido, clima de futebol no ar e, ironicamente, uma sensação enorme de derrota dentro de mim.
Deixei minha esposa na clínica médica onde ela trabalhava e, como ainda tinha algum tempo antes de seguir para a Assembleia Legislativa do Paraná — onde eu atuava como assessor de imprensa —, fiquei conversando com alguns amigos em comum. Pouco depois, ela me chamou até uma sala.
Entramos.
Ela me entregou alguns papéis.
Olhei sem entender absolutamente nada.
Então perguntei:
— O que significa isso?
E, chorando, ela respondeu:
— Significa que você vai ser papai.
Existem momentos que mudam a vida da gente para sempre. Aquele foi um deles.
A crise não evaporou magicamente, como num filme romântico de Hollywood. Casamento não funciona assim. Mas alguma coisa dentro de nós mudou naquele instante. Era como se a vida estivesse dizendo, da maneira mais inesperada possível: “Vocês ainda têm motivos para continuar”.
E continuamos.
Vieram novos desafios, noites sem dormir, boletos, diferenças, desgaste, preocupações, fases difíceis, mudanças de cidade, doenças, amadurecimento… porque casamento duradouro não é ausência de problemas; é a decisão diária de não abandonar o barco quando as águas ficam agitadas.
Hoje, olhando para trás, posso afirmar, sem medo de errar: não existe fórmula mágica para duas pessoas completamente diferentes permanecerem juntas por 25 anos.
Mas existem pilares.
A fé compartilhada.
A cumplicidade.
A capacidade de se reconectar depois das crises.
O olhar para trás sem esquecer de olhar para frente.
O desejo sincero de ver o outro feliz — mesmo quando o orgulho pede o contrário.
E, claro, o amor. Essa planta delicada que precisa ser regada todos os dias, independentemente do tempo, da idade, da rotina ou das cicatrizes acumuladas pelo caminho.
Talvez valha também aquele conselho bíblico que muita gente conhece… mas pouca gente realmente pratica:
“Mulheres, sejam submissas ao seu esposo… maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou Sua Igreja.”
Porque, no fundo, amar de verdade exige muito mais renúncia do que discurso bonito.
Celebrar bodas de prata hoje é quase um ato de resistência.
Vivemos tempos de relações imediatistas, descartáveis, frágeis como vidro fino. Pessoas desistem umas das outras por qualquer desgaste, como se relacionamentos viessem com garantia de fábrica e opção de troca.
Por isso, completar 25 anos ao lado da mesma pessoa é privilégio para poucos.
Não porque existam casamentos perfeitos.
Mas porque ainda existem pessoas dispostas a permanecer.
E talvez seja exatamente isso que o amor verdadeiro seja:
Não encontrar alguém perfeito…
mas decidir, todos os dias, caminhar ao lado de alguém imperfeito — inclusive quando nós mesmos também estamos longe de ser.
(*) EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou no Diário do Rio Doce, Rádio Globo/CBN, Rede Novo Tempo de Comunicação, foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FAGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.
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