Em que momento alguém deixa de ser criança, mas ainda não consegue se sentir adulto?
A adolescência mora exatamente nesse intervalo incômodo. Não é mais o lugar da infância, com suas certezas simples, mas também ainda não é o território estável da vida adulta. É um espaço de transição, e talvez por isso seja tão intenso. Tudo ali parece maior, mais urgente, mais difícil de entender.
Existe uma transformação visível acontecendo no corpo, mas a mudança mais profunda acontece por dentro. O cérebro está em plena reorganização. Áreas ligadas à emoção ganham força, enquanto aquelas responsáveis por controle e planejamento ainda estão amadurecendo. Isso ajuda a explicar por que tudo parece tão à flor da pele. Não se trata de exagero, mas de um sistema em desenvolvimento tentando dar conta de sentimentos novos e complexos.
No meio disso tudo, surge uma tarefa silenciosa, mas decisiva: construir uma identidade. O adolescente começa a se perguntar quem é, no que acredita, onde se encaixa. Testa caminhos, muda de ideia, experimenta diferentes versões de si mesmo. Essa aparente instabilidade não é desorientação, é exploração. É assim que alguém começa a se reconhecer.
Ao mesmo tempo, o mundo externo ganha um peso enorme. A aceitação dos outros, principalmente dos amigos, passa a ter um impacto direto na forma como o adolescente se vê. Pequenos episódios de rejeição podem ganhar proporções enormes, porque pertencer, nesse momento, não é apenas social. É emocional.
Existe ainda uma dificuldade que muitas vezes passa despercebida. Nem sempre o adolescente consegue explicar o que sente. Falta repertório para nomear emoções que são novas e intensas. Por isso, o que aparece pode ser irritação, silêncio ou afastamento. Mas, por trás disso, frequentemente existe confusão e um esforço real para entender o que está acontecendo por dentro.
Olhar para a adolescência como um problema a ser resolvido rapidamente é um erro comum. Essa fase não precisa de pressa, precisa de espaço. É um período de construção, e construções raramente são organizadas desde o início. Elas envolvem tentativas, erros e ajustes constantes.
Crescer nunca foi um caminho reto. É um processo cheio de idas e vindas, dúvidas e descobertas. E a adolescência, com todo o seu caos, é justamente o lugar onde as primeiras escolhas conscientes começam a surgir. Talvez não com clareza, mas com significado.
Psicóloga, pós graduada em Neuropsicologia pela Unifesp – CRP 04/62350
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