“Fé cega, faca amolada” e encantes conflituais

FOTO: Freepik
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Luiz Simas e Luiz Rufino ensinam, em sua obra Flecha no Tempo, que o “contrário da vida não é a morte, mas o desencanto”. Encante, para esses autores, trata-se de uma tecnologia sociopolítica de resistência; daquelas que ensinam a vida como arte de inventos, de unguentos contra o carrego do rodo cotidiano. Algo como a canção Fé Cega, Faca Amolada, na qual Milton Nascimento canta sobre a plantação dia a dia que viceja em luz, vinho e pão.

Para além do que vem nos textos dos autores, entendemos que o encante pode ser compreendido como uma interessante camada para refletirmos acerca da gestão de conflitos. Essa percepção é possível, uma vez que o conflito poderia ser percebido como uma espécie de desencante.

No encontro, no conflito, habita o negativo, que é sempre o outro, com toda sorte de ginga, calores, cores e sons. Qualquer nome que se queira conflito instaura uma rasura, uma abertura que requer, portanto, um encante; não de modo a fechar, como se ferida fosse, mas como uma ação transformadora — e seria outra a acepção que o termo encantamento nos empresta?

Essa tecnologia, portanto, indica, ao mesmo tempo, uma resiliência e uma potencialidade. Sugere resiliência não como aquietamento ou inércia, mas, sim, como prudência, que é a arte, já dita por Aristóteles, que caminha pelo meio-termo.

Assim, a resiliência é também uma face de Kairós, semideus do tempo oportuno, a nos ensinar que de nada adianta a ação certa no tempo errado, e o inverso também; essa astúcia nos doa o tempo que, sendo rei, é irmão mais antigo da resiliência, prima-irmã do bem viver.

Junto de uma resiliência, há também uma potência, porque encantar é inventar. Ou seja, o termo resistência não tem apenas uma face opositiva; dentro dela há também uma face ardente que liberta o interdito, quer dizer, encanta a palavra, tornando-a outra. Logo, encantar é libertar a potência no conflito.

Reconhecer isso é permitir que o conflito não se imponha como ponto de chegada ou, em outras palavras, como desencante; mas, sim, fazer dele o seu anverso mais inesperado, que vem com a mágica do encante.

Encantar seria nada mais do que reconhecer que, na curva da estrada, vivem a despedida e a chegada, a dor e a cura, e que, na dose da receita, por vezes, reside a chance da invenção, para que o excesso não venha a ferir de morte o desejo de viver.

Gerir conflitos seria, como na canção de Milton Nascimento, uma mistura prudente de aposta na vida e zelo por ela; uma aposta no outro que vem deixando renascer, na luz de todo dia, a oportunidade de se fazer encantado.


(*) Coordenador e professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades (GECON/UNIVALE). Professor do curso de Direito e do Mestrado em Gestão Integrada do Território (GIT/UNIVALE).

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