Alguns chutes e Muitas Rosas

FOTO: Freepik

O lendário sambista Cartola já disse que “as rosas não falam”. Ele se referia a rosas diferentes das que trarei aqui e se encontrava em um contexto diferente do futebol. Mas fato é que as chuteiras cor-de-rosa deram muito o que falar neste mundial de futebol. Já diziam Nando Reis e Samuel… Rosa: “A chuteira veste o pé descalço/ O tapete da realeza é verde”. E, de modo geral, o principal argumento das maiores marcas do mundo do esporte para a escolha da cor gira em torno do contraste com o gramado. 

Aqueles tons gritantes — e bonitos — revestem os pés de gente que chuta a redonda a fim de que o jogo da vida seja menos quadrado para nós. Interessante observar os produtos buscando algum tipo de diferenciação — embora tenham ficado todos iguais — e “ousadia” — cor-de-rosa ainda é tabu para algum punhado de pessoas para as quais prefiro não escalar nenhum adjetivo —, sendo que, na contramão, a comunicação tem exibido menos ginga que em outros tempos, embora haja uma ou outra jogada espetacular aqui e ali.

Um dia, Caetano Veloso, capitão indiscutível da minha seleção de compositores, fez uma tabelinha muito bonita com outros dois craques: “Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa/ E sei que a poesia está para a prosa/ Assim como o amor está para a amizade”. O baiano exalta a habilidade desassossegada do português Fernando Pessoa e passeia por veredas de versos para servir uma homenagem à pessoa mineira de Guimarães… Rosa. Estudar esse trio de ataque faria muito bem ao grande sertão de empresas.

Além deles, um gênio chamado Noel… Rosa já fez uma inesquecível preleção para o Brasil: “Agora vou mudar minha conduta/ Eu vou pra luta/ Pois eu quero me aprumar/ Vou tratar você com a força bruta/ Pra poder me reabilitar”. A reabilitação que buscamos no futebol é muito semelhante àquela que desejamos ver na comunicação — e, certamente, em outras áreas. Força bruta (não literalmente, por favor) para resgatar o ímpeto, o improviso, o sentimento de um discurso que dribla a resistência de anunciantes e clientes, de editores e leitores, que liberta da objetividade míope das métricas como esquema tático absoluto.

A poesia, o baile, o lúdico e a irreverência precisam voltar a habitar a lista de convocados de campanhas, reportagens e times de futebol. No fundo, já sabemos o que não nos serve: “A rosa radioativa, estúpida e inválida/ A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica/ Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”. A triste e gigantesca composição de Vinícius de Moraes e Gérson Conrad, eternizada pelo timaço do Secos & Molhados, mostra a rosa que dispensamos, que refutamos, que vaiamos. A rosa horrorosa das guerras, do pragmatismo, da ciência e do conhecimento desvirtuados. A rosa insípida e inodora que suplanta o arrojo e faz explodir o medo.

Mas: “Um beijo, meu cheiro/ O calor verdadeiro […]”. Isso, sim, queremos! Isso, sim, amamos! Nos versos de… “Rosa”, escritos por Pierre Onassis e sacralizados pelo Olodum, é possível enaltecer a rosa que chuta para longe o desespero, a preguiça, a baixa autoestima traiçoeira que nos envolve em espirais indesejáveis. Se for possível que as rosas da ousadia nos vistam dos pés à cabeça, teremos muitos motivos para ver um mundo com mais coelhos lindos saindo de cartolas — e menos cartolas obtusos e “coelhos”.

Já que falamos novamente em Cartola, voltemos ao primeiro e único (de obra tão saborosa quanto a sobremesa de mesmo nome, iguaria pernambucana): “Bate outra vez/ Com esperanças o meu coração/ Pois já vai terminando o verão […]”. É verão no Hemisfério Norte, para onde o Planeta Bola está com os olhos voltados. Cairia muito bem um hexa. Mas torço, ainda mais, é pelo imperativo caloroso de uma criatividade corajosa.

“És láctea estrela/ És mãe da realeza/ És tudo, enfim, que tem de belo/ Em todo resplendor da santa natureza”. É isso! Este trecho de… “Rosa”, de Pixinguinha, canta nosso destino natural de ter o encantamento como item obrigatório dessa missão de fazer o mundo não desistir.


(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível | Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com

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