Parece estranho ler o título deste artigo. Mas ele é real. Tenho observado, como professor, que, ano após ano, estamos criando um novo grupo de excluídos: os estudantes.
Historicamente, a educação brasileira viveu um grande dilema: deixar de incluir milhares de adolescentes e jovens que deveriam estudar. Até poucas décadas atrás, frequentar uma escola não fazia parte da cultura, por vários motivos, de grande parte dos membros das famílias brasileiras.
Todavia, esse cenário foi mudando e, aos poucos, as escolas foram se multiplicando e o ensino se tornando universal. Atualmente, podemos afirmar que quem não frequenta uma escola ou não tem acesso à educação é porque não quer. Isso mesmo: não quer, pois inúmeras são as possibilidades e opções.
Entretanto, algo inusitado aconteceu: nossas escolas encheram-se de alunos, e isso é muito bom, mas, na mesma proporção, não soubemos cultivar e valorizar os nossos estudantes. Digo isto porque não podemos confundir alunos com estudantes.
Nossas escolas estão cheias de alunos e com pouquíssimos estudantes. E esses poucos estão se perdendo no vazio do que vem se tornando a escola brasileira: um espaço da mediocridade.
Infelizmente, a sensação que tenho é que, na escola brasileira, não há espaço para o estudante, para aquele que, de fato, quer aprender, estudar, progredir, prosperar e ser um agente de transformação social.
Com o passar dos anos, a escola, que deveria ter um papel de propagadora de saberes, passou a assumir tantas outras responsabilidades, que não deveriam ser suas, que sua principal finalidade parece não ser mais o seu objetivo principal.
Assim, adolescentes e jovens que querem estudar não encontram nas escolas um espaço que impulsione seus talentos. Muito pelo contrário, acabam sendo pérolas e diamantes intelectuais desperdiçados.
E essa situação é muito ruim para o desenvolvimento do país. A desvalorização do estudante se manifesta na pouca criação tecnológica, nos poucos inventos e no pouco desenvolvimento nas mais diversas áreas do conhecimento. Quando ofertamos a um estudante a mediocridade, cometemos um crime contra a própria sociedade.
Se você, que está lendo este artigo, acha que estou sendo dramático, percorra as escolas brasileiras, converse com os professores e pergunte a eles o que acontece com um estudante em uma sala de aula onde a esmagadora maioria dos que ali estão é simplesmente formada por alunos.
Vivemos uma nova era, em que o estudante brasileiro, geralmente, acomoda-se nos piores lugares da sala, pois o “bagunceiro” tem que ficar perto do professor para ser vigiado; vive em torno de uma indisciplina terrível, que o impede de aproveitar melhor o tempo de estudos; recebe uma gama de conhecimentos muito inferior à que deveria, pois a “sala” não acompanha seu ritmo quando o nível de estudos é mais desafiador. Entre outras intermináveis situações.
Ao que tudo indica, o estudante não é bem-vindo na educação brasileira. Queremos apenas alunos e dados estatísticos que enganam e escondem a verdadeira situação da escola brasileira.
(*) Walber Gonçalves de Souza é professor, palestrante e escritor. (@prof.walbao)
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