MeteBala

FOTO: Reprodução/X

Na quarta-feira (14), a Anvisa publicou uma resolução proibindo a fabricação, distribuição, manipulação, propaganda e uso do medicamento Metbala, que continha em sua fórmula a tadalafila. A decisão veio como um freio ao uso indiscriminado de uma substância que, embora tenha aplicações médicas legítimas, tem sido utilizada com finalidades recreativas — e nem sempre com segurança.

 A tadalafila é um medicamento da classe dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5), a mesma do famoso sildenafil (o “Viagra”). Seu uso mais conhecido é no tratamento da disfunção erétil, mas ela também tem indicações aprovadas para hiperplasia prostática benigna (HPB) e para a hipertensão arterial pulmonar (HAP), em formulação específica.

Mecanismo de ação: como funciona?

De forma simplificada, a tadalafila relaxa a musculatura lisa dos vasos sanguíneos, promovendo vasodilatação e aumento do fluxo sanguíneo em determinadas regiões do corpo. No caso da disfunção erétil, isso significa facilitar a ereção durante o estímulo sexual. Já na HPB, melhora o fluxo urinário e reduz sintomas como a micção noturna frequente. Para a HAP, contribui para a redução da resistência vascular pulmonar, melhorando a capacidade funcional do paciente.

 A grande vantagem da tadalafila frente a outros medicamentos da mesma classe é sua meia-vida prolongada, cerca de 17 horas, o que permite efeitos mais duradouros, inclusive a possibilidade de uso contínuo em doses menores.

Um mercado em crescimento (e descontrole)

De acordo com dados da Anvisa, o consumo da tadalafila mais que dobrou entre 2020 e 2023, saltando de 21,4 milhões para 47,2 milhões de caixas vendidas. Em 2024, foi o terceiro medicamento mais vendido do país, atrás apenas de losartana e metformina.

 Esse crescimento não se explica apenas pelas indicações clínicas. O uso recreativo — sem prescrição médica — vem sendo impulsionado pela popularização da substância, inclusive na cultura pop. A canção “Tadalafila”, sucesso nas plataformas digitais, já antecipa o enredo:

 “Sabe qual é o segredo pra aguentar a noite todinha? Tadalafila!”

 O problema é que o uso sem acompanhamento médico não é inofensivo.

Efeitos adversos e contraindicações

Como qualquer fármaco, a tadalafila não está isenta de riscos. Os efeitos colaterais mais comuns incluem:

 • Cefaleia, dor nas costas, rubor facial, congestão nasal e dispepsia;

 • Em casos mais graves: priapismo (ereção prolongada e dolorosa), perda súbita de visão ou audição, hipotensão severa e eventos cardiovasculares.

 O uso é absolutamente contraindicado em pacientes que:

 • Fazem uso de nitratos (medicamentos usados para angina);

 • Apresentam doença cardiovascular que contraindique a atividade sexual;

 • Tenham hipersensibilidade à substância;

 • E, importante destacar: indivíduos sem disfunção erétil não devem utilizar o medicamento com a intenção de “potencializar” o desempenho sexual. A medicação não foi desenvolvida para isso e o risco não compensa.

Quando o uso é bem indicado…

Quando usada corretamente, sob prescrição médica e com indicação precisa, a tadalafila pode ser uma aliada importante na qualidade de vida de muitos pacientes. Contribui de forma significativa no tratamento da hiperplasia prostática benigna e da hipertensão arterial pulmonar, além de seu já conhecido papel no manejo da disfunção erétil.

 Mas, como todo remédio potente, ela exige cautela. A banalização do uso, especialmente entre jovens sem indicação clínica, pode trazer consequências sérias. Por isso, antes de seguir a dica da música e “meter bala”, procure um médico. Às vezes, a melhor potência vem do bom senso.


(*) Cardiologista pela USP | CRM 180164 – RQE 56184

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