Durante uma entrevista em que analisava os desafios econômicos e institucionais do país, o empresário Rubens Menin, fundador da MRV, uma das maiores construtoras da América Latina, fez uma reflexão que merece atenção. Ao abordar o papel das lideranças na construção de soluções coletivas, destacou a importância de fortalecer as instituições de classe para ampliar o diálogo com o poder público, qualificar o debate e levar propostas capazes de contribuir para o desenvolvimento das cidades e do país.
Embora a observação tenha sido feita no contexto da economia, ela nos leva a refletir sobre uma questão que afeta diretamente as cidades: estamos participando das conversas que ajudarão a definir as transformações que já estão acontecendo?
A pergunta é especialmente relevante para Governador Valadares.
Somos uma cidade-polo. Exercemos influência regional na educação, na prestação de serviços, no comércio, na saúde e na formação de profissionais. Temos universidades, conselhos profissionais, entidades de classe, empresários, gestores públicos e lideranças capazes de contribuir para debates importantes.
Mas estamos ocupando esses espaços?
Ou estamos aguardando que as soluções sejam construídas em outros lugares para, mais tarde, apenas nos adaptarmos a elas?
Essa reflexão se torna ainda mais necessária quando observamos a velocidade das mudanças que já fazem parte da nossa realidade.
Os carros elétricos estão chegando às garagens dos condomínios. A reforma tributária já provoca dúvidas e exigirá adaptações. As novas exigências relacionadas à saúde mental e aos riscos psicossociais passaram a integrar a rotina das organizações. A tecnologia avança em ritmo acelerado. Os custos aumentam. As responsabilidades jurídicas se ampliam.
Nada disso pertence ao futuro.
Tudo isso já está acontecendo.
Talvez por isso os condomínios tenham se transformado em um dos ambientes mais interessantes para observar as transformações da sociedade. Neles convivem questões jurídicas, financeiras, tributárias, humanas, tecnológicas e de infraestrutura. Os desafios chegam ao mesmo tempo e raramente podem ser resolvidos por apenas uma profissão ou um único setor.
Mais do que espaços de moradia, os condomínios se tornaram ambientes de convivência, prestação de serviços, circulação de recursos, geração de negócios e tomada de decisões. Movimentam milhões de reais todos os anos, contratam fornecedores, empregam trabalhadores, demandam inovação e concentram questões que impactam diretamente a qualidade de vida das pessoas.
Os condomínios deixaram de ser apenas parte das cidades. Eles passaram a influenciar o modo como as cidades se organizam e se desenvolvem.
Por isso, os desafios que surgem nesses ambientes interessam muito mais do que aos síndicos.
A reforma tributária não é um assunto apenas dos contadores.
A saúde mental não é um assunto apenas dos psicólogos.
A mobilidade elétrica não é um assunto apenas dos engenheiros.
A gestão de riscos não é um assunto apenas dos advogados.
A sustentabilidade financeira não é um assunto apenas dos administradores.
Esses temas se cruzam diariamente na vida das pessoas, das empresas, das instituições e dos condomínios.
As respostas também precisam se cruzar.
Uma cidade-polo precisa participar dessa conversa
Quando Rubens Menin fala sobre fortalecer instituições e ampliar a participação das lideranças, sua reflexão ultrapassa o ambiente empresarial. Ela fala sobre a responsabilidade de ocupar os espaços onde os problemas são discutidos antes que se transformem em crises.
Essa talvez seja uma das grandes oportunidades de Governador Valadares.
Como polo regional de educação, serviços e negócios, a cidade reúne profissionais, instituições e estudantes capazes de contribuir para debates relevantes. Mas essa capacidade só se transforma em desenvolvimento quando existe participação.
O poder público precisa participar dessas conversas.
As universidades precisam participar dessas conversas.
Os conselhos profissionais precisam participar dessas conversas.
As entidades de classe precisam participar dessas conversas.
Os empresários precisam participar dessas conversas.
Os estudantes precisam participar dessas conversas.
Porque os desafios que já chegaram aos condomínios também impactam empresas, organizações, instituições e a própria dinâmica urbana.
E nenhuma dessas transformações será compreendida ou enfrentada adequadamente se cada setor continuar debatendo seus problemas de forma isolada.
Quando as instituições decidem participar
A reflexão proposta por Rubens Menin sobre o papel das instituições ganha contornos práticos quando observamos iniciativas que buscam ampliar o debate e aproximar profissionais, entidades e lideranças.
O 1º Seminário Condomínios na Prática: decisões, riscos e responsabilidades nasceu dessa convergência. A iniciativa partiu da Comissão de Direito Condominial da OAB/MG, presidida pelo advogado Sílvio Cupertino, será realizada em parceria com a 43ª Subseção da OAB/MG em Governador Valadares, presidida pelo advogado Arilson Ribeiro.
A proposta é simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: trazer para o interior discussões que normalmente se concentram nos grandes centros e conectar profissionais de diferentes áreas em torno de temas que já impactam a vida urbana.
O apoio do Sindicon-MG também marca um momento importante para o setor. Presidida por Carlos Eduardo Alves de Queiroz, a entidade participa pela primeira vez da realização de um evento em Governador Valadares, ampliando sua presença no interior do estado e fortalecendo a aproximação com profissionais e lideranças da região.
Mais do que uma soma de apoios institucionais, o seminário representa um exemplo concreto da importância de fortalecer entidades, ampliar o diálogo e criar espaços capazes de reunir diferentes setores em torno de desafios comuns.
As transformações das cidades passam pelos condomínios
A presença do professor Miguel Zaim reforça esse propósito. Referência nacional no Direito Condominial, ex-presidente e um dos fundadores da Associação Nacional da Advocacia Condominial (ANACON), Zaim é autor de diversas obras jurídicas e estudioso de temas que desafiam os modelos tradicionais de ocupação, gestão e utilização dos empreendimentos imobiliários.
Sua trajetória está ligada a discussões que ultrapassam os limites dos condomínios e dialogam diretamente com as transformações econômicas, sociais e urbanas que vêm redesenhando as cidades. Questões como multipropriedade, novos modelos de moradia, uso compartilhado de espaços, gestão de riscos e relações de convivência já fazem parte de uma realidade que exige profissionais mais preparados e instituições mais conectadas com as mudanças em curso.
Ao trazer esse debate para Governador Valadares, o seminário aproxima a cidade de discussões que já ocupam espaço nos principais centros de formação, pesquisa e desenvolvimento do país, reforçando a importância de preparar lideranças, profissionais e instituições para os desafios que já chegaram e para aqueles que ainda estão por vir.
Uma tarde para ampliar horizontes
É com esse propósito que será realizado o 1º Seminário Condomínios na Prática: decisões, riscos e responsabilidades.
O evento não foi concebido apenas para síndicos e administradoras. Foi pensado para reunir diferentes áreas do conhecimento em torno de desafios que já fazem parte da realidade.
Advogados encontrarão novas perspectivas de atuação profissional.
Contadores poderão aprofundar discussões relacionadas à prestação de contas e aos impactos da reforma tributária.
Psicólogos e profissionais da área de saúde terão a oportunidade de debater os reflexos da NR-1 e os desafios relacionados à saúde mental e aos riscos psicossociais.
Engenheiros poderão discutir os impactos da mobilidade elétrica e os desafios de infraestrutura que acompanham essa transformação.
Empresas de medicina e segurança do trabalho encontrarão um ambiente propício para compreender novas demandas e oportunidades.
Estudantes terão contato com especialistas e temas que estão moldando o mercado profissional.
Mais do que um seminário sobre condomínios, o evento propõe uma reflexão sobre gestão, responsabilidade, inovação, desenvolvimento urbano e tomada de decisões.
Participar não significa interromper o trabalho.
Significa dedicar algumas horas para compreender tendências, trocar experiências, construir conexões e retornar às atividades com novas perspectivas.
Em um cenário de mudanças aceleradas, atualização profissional e diálogo qualificado deixaram de ser diferenciais. Tornaram-se necessidades.
Programação e inscrições
O 1º Seminário Condomínios na Prática: decisões, riscos e responsabilidades será realizado no dia 23 de junho, de 13h às 19h no Auditório da OAB Governador Valadares. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pela plataforma Sympla.
O professor Miguel Zaim abre o evento com a palestra “Advocacia Condominial: Muito Além do Síndico e da Cobrança”. O título é intencional. Ele revela a amplitude das possibilidades de atuação do Direito em diferentes áreas do universo condominial e imobiliário, além do potencial que esse mercado representa tanto para profissionais já formados quanto para estudantes que buscam novas oportunidades de atuação.
Na sequência, o contador Marcos Avelino abordará um dos maiores desafios da gestão condominial: as finanças e a prestação de contas. Com ampla experiência no segmento, ele mostrará os erros mais comuns nesse processo, situações que podem gerar prejuízos aos moradores, comprometer a credibilidade da gestão e até resultar na destituição do síndico. Também destacará um aspecto frequentemente negligenciado: quais documentos não podem faltar em uma prestação de contas.
O seminário também reserva espaço para discutir formas de fortalecer a saúde financeira dos empreendimentos. A proposta é apresentar alternativas e soluções que permitam aos condomínios enfrentar dificuldades financeiras sem que todo o impacto seja repassado aos moradores. O tema será conduzido por Gabriel Coimbra, do Sicoob Crediriodoce.
Após o coffee break, a programação avança para três temas que já fazem parte da realidade dos condomínios e exigem preparação de gestores, administradoras e profissionais que atuam no setor: reforma tributária, saúde mental e mobilidade elétrica.
O Analista-Tributário da Receita Federal, Hélcio Armond Júnior, apresentará os impactos da reforma tributária para condomínios e administradoras, esclarecendo dúvidas e apontando os principais desafios que acompanham as mudanças.
Na sequência, a psicóloga clínica e neuropsicóloga Márcia Alves Pinho abordará os reflexos da NR-1, a importância da saúde mental no ambiente de trabalho e as medidas de prevenção relacionadas aos riscos psicossociais.
Encerrando as palestras, o engenheiro eletricista André Miranda Pereira discutirá os riscos, responsabilidades e adaptações necessárias para a chegada dos veículos elétricos aos condomínios, um tema cada vez mais presente na rotina dos empreendimentos.
O evento será concluído com uma mesa de debates e um momento dedicado ao networking entre os participantes, que também receberão certificado de participação.
(*) Cleuzany Lott é advogada, com especialização em Direito Condominial, MBA em Administração de Condomínios e Síndica Profissional. É Presidente da Comissão de Direito Condominial da 43ª Subseção da OAB-MG, em Governador Valadares, e 3ª Vice-Presidente da Comissão de Direito Condominial de Minas Gerais. Coautora do livro Experiências Práticas em Conflitos Condominiais, atua também como síndica, jornalista e palestrante, com foco na gestão condominial responsável, prevenção de conflitos e comunicação jurídica acessível.
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