
Em tempos idos em que a bola era feita de couro, que o couro era de boi, que o boi comia grama e então se recomendava para deslizar a bola sobre a grama — fundamento maior ministrado por mister João Rosa à frente de seu Esporte Clube do Rio Doce —, vigiam conceitos, normas e princípios inaplicáveis aos dias atuais no mundo do futebol.
A regra geral era que a maioria dos craques do futebol — os verdadeiros — se eternizavam em seus clubes e neles se consagravam, tornavam-se ídolos idolatrados e imortalizados. Quando muito, no final de carreira, atuavam em pequenos clubes de pequena ou nenhuma expressão. Nada mais do que o crepúsculo a que se sujeitavam ou a que eram acometidos.
Garcia, Tomires e Pavão fora do Flamengo? Nem pensar. Castilho, Píndaro e Pinheiro fora do tricolor das Laranjeiras? Inimaginável. Écio, Orlando e Coronel deixando São Januário? Nunca. Zito, Calvet, Coutinho e Pepe defendendo outro clube que não o Peixe da Vila Belmiro? Provocaria greve na Baixada Santista. Refrescando a memória, vamos encontrar inúmeras situações do gênero, próprias do futebol brasileiro e de outros países.
Pelé se imortalizou no Santos; Zico se tornou ídolo maior do Flamengo; Roberto Dinamite faz parte da história do Vasco da Gama; Castilho é lembrança eterna no Fluminense; Ademir da Guia, no Palmeiras, tem estátua nas dependências do clube, ainda que vindo do Bangu; Kafunga até hoje é lembrado no Atlético de Minas Gerais e inúmeros outros fazem parte das histórias de grandes clubes nacionais e internacionais.
Inversa e excepcionalmente, Ronaldo ‘dentuço’ defendeu os maiorais da Espanha, Real Madrid e Barcelona; Evaristo de Macêdo fez o mesmo; Cerezo fez história no Galo e São Paulo; Gilmar dos Santos Neves brilhou no Corinthians e Santos; Cafu, adestrado por Telê Santana, brilhou no São Paulo e Palmeiras; o português Figo arranjou uma encrenca danada na Espanha ao trocar o Barcelona pelo Real, e seu compatriota Cristiano, sem amor à camisa e ainda em atividade, defendeu inúmeros clubes famosos de várias partes do mundo.
Chegamos aos dias atuais em que o futebol deixou de ser um esporte, tornando-se um negócio de alto risco, movimentando valores revoltantes que atentam contra princípios humanitários e em que nomes e importâncias de clubes são meros detalhes, tornando-se o atleta ou futebolista uma mera mercadoria. Quem dá mais? Fazemos qualquer negócio.
Especificamente em nosso país, o jovem pretenso atleta e seus familiares projetam de imediato uma transferência para o exterior, normalmente definida muito cedo e efetivada ao completar o atleta 18 anos. Cumpre-se a norma legal vigente e nada mais. Desnecessários exemplos numéricos, porém os casos de Estevão e Endrick são grandes exemplos.
Excepcionalmente ou mesmo rotineiramente, duas situações estão ocorrendo em relação a futebolistas brasileiros que se mandam para o exterior: as coisas não correm bem de imediato ou, mesmo com o encerramento do ciclo externo, implicam no retorno à Terra de Santa Cruz.
As alterações introduzidas na antiga Lei do Passe fizeram com que o atleta deixasse de ser escravo dos clubes, porém permanecendo escravo de outros senhores feudais que em tudo se metem, intrometem, ditam procedimentos, fazem negócios não republicanos e fazem um mal danado ao futebol.
Assim, uma sincera ou mesmo discreta manifestação de vontade, de gratidão, de boas lembranças, da lavra de atletas que partiram e estão ou pretendem retornar ao país, sucumbe diante dos conchavos e entendimentos de poderosos, incluindo dirigentes de clubes, não lhes permitindo retornar ao ninho antigo. O dinheiro é tudo. É a máxima do futebol dos dias atuais.
Crucificar John Arias? O técnico Leonardo Jardim? O volante Gerson? Provavelmente Nino será o próximo. Bom seria se os apaixonados dos canais de YouTube, que normalmente colocam a paixão clubística em seus comentários, bem informassem ao grande público que é mínima a participação de um futebolista na decisão de seu vínculo clubístico. Ele é apenas a mercadoria.
A pecha de mercenário, de traidor, de ingrato e outros qualificativos, raríssimas exceções, não se aplicam aos futebolistas que retornam ao futebol brasileiro. Ao contrário, muitas vezes cabíveis e procedentes tais assertivas no tocante a determinados críticos e analistas.
O amor à camisa, a gratidão, fazer parte de uma história dignifica, honra e valoriza um ex-atleta, porém há situações em que o profissionalismo, a norma legal e determinadas circunstâncias provocam questionamentos que não se justificam. É preciso ler além do literal.
(*) Ex-atleta
N.B. 1 – Ano novo, temporada de futebol nova, porém com as mesmas e velhas arbitragens, inclusive do VAR. Interpretações? Dependem da cor e peso das camisas. É grande a insegurança nas arbitragens envolvendo uns poucos, pouquíssimos clubes poderosos.
N.B. 2 – Antipatia à parte, é flagrante a má vontade de muitos em relação a Neymar. Ao se expressar de forma infeliz após uma partida de futebol em que levara advertência com cartão amarelo que o tiraria da partida seguinte, estão a crucificá-lo. Quem sabe está na hora de dar ‘uma banana’ para todo mundo?
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