Adir Blanc namora o tempo quando compõe me dá a penúltima, hino da boemia e das pessoas que, como seu Zé Pelintra, sabem que nem todo claro é luz e nem toda escuridão fossa.
Começa a letra dizendo de uma deambulação, em jeito de uma escrevivência, na medida em que enquanto escreve, inscreve com a palavra seu corpo, seu copo, seu tempo. Nesse tom, Blanc diz em tom crepuscular: “Eu gosto quando alvorece. Porque parece que está anoitecendo. E gosto quando anoitece, que só vendo. Porque penso que alvorece”.
Essa interessante canção ensina bastante acerca da forma como é possível lidar com os conflitos que nos enredam o ser e estar no mundo. Ao jogar com o alvorecer e o anoitecer, Blanc nos lança direto para o seio da tensão, que seria esse modo ético de habitar a relação com a diversidade; ou seja, por vezes, quando nos deparamos com questões que nos retiram os alicerces e/ou nos questionam em nossas certezas, acabamos por reagir mal, seja por medo, defesa ou recalque.
Ao contrário desta reação menos elaborada, a canção de Blanc nos oferta a chance de tocar (n)a tensão, de experimentar sob outro prisma aquilo que nos retirou a tranquilidade, que nos causou, portanto, um conflito.
A tensão, da maneira como estamos a refletir, não é apenas um estado de imprecisão, que ao contrário de ser superado, pode se constituir enquanto morada. Habitar a tensão seria oportunizar ao diverso que se pronuncie em nós, deixar a noite clarear e a alvorada anoitar.
O crepúsculo que nos oferta a canção é uma das maneiras mais interessantes para se observar um conflito, ora, como nos ensina, desde sempre, Aristóteles, nos extremos reside a injustiça, e, no mesmo sentido, pensar o conflito como crepúsculo, nos permite sentir o doce no salgado, e o inverso também. A zona de oscilação crepuscular é a antessala da invenção, que por sua vez, é filha primeira do conflito, do atrito, do amor, do ódio.
Logo, seria importante nos desabitarmos de pensar pelos extremos, e mais ainda, pelos pares opostos; sugerimos fazer lugar nos conflitos sob a cena crepuscular. Nele haverá o mal e também o bem, terão casa o fim e o início, como a mistura de tudo que nos torna humanos.
E assim, admitindo a tensão, a mistura e a diversidade, como modo mesmo de existirmos, parece que o samba empresta uma nota mais. O conflito nem sempre se apresentará por completo, uma vez que ele comporta sempre essa chance de reinscrição da linguagem, doada pela interpretação, tornando-a para além do horizonte, para além do tempo do trabalho, que tanto amola a arte dos bares, para além do fim.
Enquanto escrevo e escuto a canção de Adir, outra tensão se instala, o trem se aproxima de Belo Horizonte me distanciando de Valadares, entretanto, ainda não sei se estou chegando ou partindo, anoitecendo de saudade ou alvorecendo de amor.
Gerir conflitos pode ser então, aceitar a sugestão, e antes que a viagem se acabe, saborear a tensão: me dá a penúltima.
(*) Coordenador e Professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades – GECON/UNIVALE. Professor do curso de Direito e do Mestrado em Gestão Integrada do Território – GIT/UNIVALE.
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