O condomínio investiu em câmeras, reconhecimento facial, aplicativos, controle eletrônico de acesso e portaria remota. Ainda assim, basta um morador emprestar sua tag a um familiar, liberar a entrada de alguém sem a devida identificação ou ignorar um protocolo de segurança para que todo esse investimento perca parte de sua eficácia.
Pode parecer exagero, mas a realidade dos condomínios mostra exatamente isso. Muitas das vulnerabilidades que preocupam síndicos e moradores não estão relacionadas à falta de tecnologia, mas a comportamentos cotidianos que passam despercebidos por quem os pratica.
Quem vive em condomínio provavelmente já presenciou situações semelhantes. O portão é mantido aberto para facilitar a entrada do veículo que vem logo atrás. Um visitante é liberado sem a conferência adequada. Um controle de acesso é emprestado para evitar transtornos. Afinal, é apenas uma exceção. Apenas desta vez.
O problema é que a segurança não é construída pelas exceções. Ela depende do cumprimento dos procedimentos justamente nos momentos em que parece mais fácil ignorá-los.
Essa foi uma das reflexões mais relevantes que levei da Exposec 2026 – Feira Internacional de Tecnologia em Segurança, considerada o maior evento do setor na América Latina.
O que a Exposec ensina aos condomínios
Realizada entre os dias 1º e 3 de junho, no São Paulo Expo, a 27ª edição da feira reuniu mais de 800 marcas expositoras, profissionais de mais de 40 países e expectativa de receber cerca de 58 mil visitantes. O evento reflete a força de um mercado que movimentou mais de R$ 16 bilhões apenas em 2025 e que continua avançando impulsionado por tecnologias como inteligência artificial, reconhecimento facial, videomonitoramento inteligente e sistemas integrados de controle de acesso.
Para quem atua na gestão condominial, participar de eventos como esse vai muito além de conhecer novos equipamentos. É uma oportunidade de compreender como pensam os fabricantes, os prestadores de serviços e os especialistas responsáveis por desenvolver soluções que, mais cedo ou mais tarde, chegarão aos condomínios.
Afinal, são síndicos e administradoras que, na maioria das vezes, analisam, contratam e indicam os serviços que serão utilizados pelos empreendimentos. Por isso, é fundamental entender não apenas o que o mercado oferece, mas também quais desafios ele enfrenta.
Entre os diversos debates promovidos durante a programação, um dos que mais chamou minha atenção foi o painel “Portarias Remotas: A Evolução e a Eficiência dos Serviços e sua Constitucionalidade”, mediado por Selma Migliori, presidente da ABESE – Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança.
O painel reuniu especialistas de destaque no setor, entre eles Guilherme Barbalho, diretor jurídico da ABADI – Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis; José Julio Pereira, CEO de uma das maiores franquias de portaria eletrônica do país; e Ivo Junkes, sócio-diretor de uma das maiores plataformas de gestão condominial do mercado.
Embora o debate tenha abordado questões jurídicas, operacionais e tecnológicas, uma observação feita por José Julio merece atenção especial dos síndicos, gestores e moradores.
Segundo ele, quando uma portaria remota falha, o problema raramente está na tecnologia.
A falsa sensação de segurança
A afirmação pode surpreender quem acredita que a solução para os problemas de segurança está apenas na aquisição de equipamentos mais modernos.
Mas a experiência prática mostra que nenhum sistema é capaz de compensar falhas humanas ou procedimentos inadequados.
José Julio chamou atenção para a existência de empresas que comercializam projetos sem a estrutura necessária para garantir sua eficiência, deixando de prever redundâncias de internet, energia e protocolos de contingência. São situações que podem comprometer o funcionamento do sistema e gerar uma sensação de segurança maior do que a proteção efetivamente oferecida.
No entanto, mesmo quando a tecnologia é adequada e o projeto é bem executado, existe um desafio ainda maior.
Quando o morador faz parte do problema sem perceber
Durante o painel, um ponto foi recorrente: muitos moradores desejam mais segurança, mais tecnologia e mais economia, mas nem sempre estão dispostos a adotar os comportamentos necessários para que tudo isso funcione adequadamente.
A implantação de uma portaria remota, por exemplo, exige que os usuários utilizem corretamente tags, biometria, aplicativos e procedimentos de acesso. Exige também que compreendam por que determinadas regras existem.
Quando essas orientações são ignoradas, cria-se uma vulnerabilidade que nenhuma câmera ou sistema de reconhecimento facial consegue eliminar sozinho.
Um condomínio pode investir em monitoramento 24 horas, inteligência artificial e equipamentos de última geração. Ainda assim, basta uma única atitude inadequada para abrir uma brecha em todo o sistema.
É justamente nesse ponto que muitas discussões sobre segurança acabam se tornando injustas. Quando ocorre uma falha, a primeira reação costuma ser responsabilizar a tecnologia. Poucos param para avaliar se os procedimentos estavam sendo cumpridos por todos os envolvidos.
Segurança é comportamento
Uma das conclusões mais importantes daquele debate foi que a implantação de uma tecnologia não termina quando os equipamentos são instalados.
Ela exige treinamento contínuo, comunicação eficiente e conscientização permanente dos usuários.
Também exige integração entre síndicos, administradoras e prestadores de serviços. Afinal, não basta contratar uma solução. É necessário garantir que ela seja compreendida e utilizada corretamente por quem fará uso dela todos os dias.
Ao final do painel, ficou evidente que a segurança eficaz continua baseada em três pilares: equipamentos, procedimentos e pessoas.
Os recursos tecnológicos continuarão evoluindo. A inteligência artificial tornará os sistemas mais inteligentes. Os equipamentos serão cada vez mais precisos. Os aplicativos ampliarão a integração entre moradores e administração.
Mas nenhuma dessas ferramentas será plenamente eficaz se os usuários não compreenderem que fazem parte do sistema de proteção.
Os recursos tecnológicos continuarão evoluindo. A inteligência artificial tornará os sistemas mais inteligentes. Os equipamentos serão cada vez mais precisos. Os aplicativos ampliarão a integração entre moradores e administração. Mas nenhuma dessas ferramentas será plenamente eficaz se os usuários não compreenderem que fazem parte do sistema de proteção.
Ao final, talvez a pergunta mais importante seja: estou contribuindo para a segurança do meu condomínio ou criando riscos sem perceber?
(*) Cleuzany Lott é advogada, com especialização em Direito Condominial, MBA em Administração de Condomínios e Síndica Profissional. É Presidente da Comissão de Direito Condominial da 43ª Subseção da OAB-MG, em Governador Valadares, e 3ª Vice-Presidente da Comissão de Direito Condominial de Minas Gerais. Coautora do livro Experiências Práticas em Conflitos Condominiais, atua também como síndica, jornalista e palestrante, com foco na gestão condominial responsável, prevenção de conflitos e comunicação jurídica acessível.
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