Durante a Segunda Guerra Mundial, engenheiros militares americanos analisavam aviões que retornavam das missões de combate marcados por perfurações visíveis nas asas e na fuselagem. Diante daquele cenário, a decisão parecia lógica: reforçar os pontos onde os aviões apresentavam mais danos. Afinal, era ali que estavam sendo atingidos.
Foi então que o matemático húngaro Abraham Wald fez uma pergunta simples, mas profundamente perturbadora:
— “E os aviões que não voltaram?”
O silêncio que se seguiu revelou algo que havia passado despercebido. Os buracos mostravam os lugares onde um avião podia ser atingido e, ainda assim, voltar para casa. Já os aviões que não voltaram provavelmente foram atingidos em áreas críticas — motor, cabine, tanque de combustível — regiões que, por não aparecerem nos aviões analisados, estavam sendo ignoradas.
Esse fato revela um erro comum da percepção humana, conhecido como viés de sobrevivência. Ao invés de reforçar as asas furadas pelas balas inimigas, o mais crucial seria proteger as partes críticas que, quando atingidas, causariam a falha total.
Assim como os engenheiros americanos, muitas vezes nós também avaliamos a vida pelos “aviões que voltaram”, ou seja, olhamos para as pessoas que parecem fortes, as famílias que aparentam estabilidade, que demonstram serenidade, as histórias de vitória que nos inspiram.
Mas ignoramos “os que não voltaram”, os que não aparecem, os que não fazem barulho. Não damos a devida importância àquilo que parece intacto, mas está extremamente vulnerável; àquilo que parece estar bem, mas que, na realidade, sustenta tudo: o interior, o coração, a alma.
É exatamente nesse ponto que a fé cristã nos convida a um olhar mais profundo, pois ela não se limita a remendar as superfícies, mas a fortalecer o coração, o lugar onde a vida realmente se sustenta:
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” – Provérbios 4:23
O coração, na perspectiva bíblica, não é apenas o órgão físico, mas o centro das emoções, das decisões, da fé e da espiritualidade. É até possível aparentar estabilidade enquanto, internamente, há fragilidades profundas. As pessoas continuam funcionando, produzindo, sorrindo e cumprindo seus papéis. No entanto, o fato de ainda estarem “voltando” não significa que estejam intactas nas áreas vitais.
A fé cristã, quando vivida de forma autêntica, não ignora as feridas visíveis, mas vai além delas. Ela nos ensina a examinar o que parece estar bem, a levar diante de Deus não apenas nossas crises evidentes, mas também nossas motivações, pensamentos e emoções mais profundas. É nesse relacionamento com Deus que encontramos restauração, direção e fortalecimento.
A lição que emerge dessa reflexão é clara: não basta tratar apenas o que está quebrado; é necessário cuidar daquilo que sustenta a vida. É no coração guardado, fortalecido e alinhado com Deus que encontramos os recursos necessários para enfrentar qualquer batalha, visível ou não.
(*) Pastor da Primeira Igreja Batista de Governador Valadares, psicólogo e presidente da Junta de Educação do Colégio Batista.
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