
As gírias estão, sem sombra de dúvidas, entre as maiores evidências da força do imponderável nas relações humanas. Elas fascinam porque surgem “do nada”, e ninguém consegue explicar como passam a se tornar elementos fundamentais da nossa comunicação. Sim, sei que há explicações para as origens de muitas delas, mas nunca são completas. Mesmo entre os pesquisadores sérios, não é possível fechar a conta. E, para piorar, ainda há uma espécie bastante comum nas redes sociais: o profeta do passado. É o “especialista” que sabe explicar com precisão por que algo aconteceu de determinada forma. E, se depois acontecer de outra maneira, basta pedir à IA para ajustar o texto e as imagens do carrossel.
Recentemente, a sociedade fez download de um novo pacote de gírias e comportamentos que — como costuma acontecer — está em fase de adaptação e vem sofrendo alguma resistência das gerações já estabelecidas — essas que falam “massa”, “irado”, “de boas”, “mano”, “caraca” etc. (“top”, embora ainda ocorra em atos falhos, vem sendo abolida por todes — e todes, que não é gíria, vive sob constante ataque… Que confusão, gente!). Enfim, entre as novidades, duas me chamaram atenção de forma especial: “farmar aura” e “six-seven”. Segundo consta, ambas foram introduzidas e têm sido disseminadas pela geração Alpha, formada pela turma nascida a partir de 2010.
Farmar aura tem a ver com reunir prestígio nas redes sociais. Na linguagem dos games, farmar é o mesmo que acumular recursos. Já a aura é aquilo que nos confere originalidade, força, beleza, good vibes (termo antigo?). Portanto, quem farma aura está amealhando carisma e simpatia, gerando desejo, inspirando e, certamente, despertando inveja — um dos motores do engajamento em qualquer rede social. Se, no clássico ensaio “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, o filósofo e sociólogo Walter Benjamin discutiu como a reprodução descontrolada de uma obra comprometeria sua singularidade, sua “aura”, hoje é a repetição — muitas vezes controlada — de comportamentos, poses, passeios e figurinos (ops, outfits; sorry, geração Enzo) que permite a tantos jovens farmar aura por aí.
Com o “six-seven”, o bagulho fica mais loko. O termo ganhou as novas gerações graças a uma coincidência bizarra de fatos, qual seja: 1) a música “Doot Doot”, do rapper estadunidense Skrilla, na qual ele repete “six seven” — escutei o som e, por enquanto, não curti; 2) a altura do jogador de basquete LaMelo Ball, da NBA: 6 pés e 7 polegadas; e 3) um menino estadunidense que aparece em um vídeo sobre basquete mexendo as mãos e gritando “six-seven!”. Há relatos na imprensa de escolas de educação básica que estão tendo problemas para conter estudantes quando o número 67 aparece em uma estatística, na página de um livro ou em qualquer outra situação dentro de uma aula ou atividade.
Casos assim são muito didáticos. Ensinam como somos bobos — para nos proteger da monotonia, entre outros motivos — e como quase nunca as coisas ocorrem exatamente como o planejado. Inclusive na comunicação, o fortuito está aí, todos os dias, mostrando aos fanáticos por métricas, pesquisas, planilhas e inteligência artificial que os resultados não serão derivados apenas disso. Como sempre afirmo, nada contra os avanços e nem contra o planejamento, mas tudo contra quem pensa que o aspecto humano — ainda que ordinário — deixará de ser determinante.
Pode-se dizer, com segurança, que six-seven deu “novos números” ao universo das gírias. E ainda há outras coincidências. A terceira edição do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, é frequentemente apontada como a mais célebre. Foi realizada em 1967 (six-seven!!!). No belíssimo documentário “Uma Noite em 67”, lançado em 2010 e dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, é possível conhecer a história do evento e outros episódios daquele tempo. Também dá para ver depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e muito mais. Todos farmando aura.
Foi também em 1967 (six-seven!!!) que Spock fez, pela primeira vez, a saudação vulcana em um episódio de “Star Trek”. O gesto de exibir a palma da mão, separando o dedo médio do anelar, é um dos maiores símbolos da cultura pop. Tem até emoji no WhatsApp. No mesmo 1967 (six-seven!!!), The Doors lançou dois álbuns (“The Doors” e “Strange Days”), The Jimi Hendrix Experience chutou a porta com mais dois (“Are You Experienced” e “Axis: Bold as Love”), e os Beatles soltaram os inebriantes “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “Magical Mystery Tour”. Teve muito mais, mas isso já seria o bastante para farmar aura e sacudir o mundo. Ah, e, se você digitar “six-seven” no Google, sua tela começa a sacudir. Pois é. A história se repete. E sabemos muito bem de que maneira.
(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível | Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com
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