A felicidade que nos é reservada

FOTO: Freepik

A marca de moda Reserva é uma das mais consagradas do país. Com seu simpático pica-pau nas peças, nasceu meio que contestando, com tropicalidade e irreverência, marcas de elite mais identificadas com o hemisfério norte. Antes de se “popularizar” (com aspas, pois os artigos ainda são bem caros para o brasileiro médio), a Reserva era a melhor forma de um consumidor homem, hétero e de alto padrão exibir brasilidade e jovialidade. Deu muito certo. A marca teve um crescimento meteórico e, em 2020, foi adquirida pela Arezzo em uma operação avaliada em R$ 715 milhões. Hoje, faz parte do conglomerado Azzas 2154, o maior grupo de moda da América Latina.

No último dia 16 de março, a Reserva fez uma postagem em sua conta no Instagram, com um fundo preto e o texto na cor branca: “A Reserva vai fechar”. A essa altura, o usuário de redes sociais e seguidor da Reserva já está vacinado para essas ações. Então, o suspense deve ter sido menos por medo de que a marca deixasse de existir e mais para saber o motivo daquela brincadeira. A resposta veio dois dias depois. A Reserva “saiu do ar” durante 48 horas como uma ação para convidar o público a desacelerar. Recomendou que as pessoas desligassem o celular e fossem ler um livro. Lançou uma nova coleção com fotos feitas no Real Gabinete Português de Leitura. Ficou tudo lindo e deu uma boa repercussão no mundo do marketing.

O trabalho lembra uma vinheta dos tempos áureos da MTV Brasil, com o seguinte texto: “desliga a televisão e vá ler um livro!”. Já em outubro de 2015, a Netflix publicou um vídeo no qual um famoso Youtuber assistia a uma série e era interrompido em seu lazer. No final, o serviço de streaming dava o comando: “Vá estudar. Sua série preferida vai continuar na Netflix depois do Enem”. São ideias legais que conferem prestígio às marcas. Mas, neste espaço, cabe fazer outro tipo de leitura. Não é curioso como o mercado cria e incentiva hábitos e, muitas vezes, esses hábitos tornam-se problemas com os quais não sabemos lidar? E não é irônico que o mesmo mercado crie os atenuantes para aliviar nossas dores, recomendando alternativas ao que ele consolidou e apurando algum benefício?

Não se trata, aqui, de um ataque às marcas mencionadas. A questão é estrutural. Quer ver outra situação muito mais tensa? No Brasil, de modo geral, as cidades caminham para serem cada vez menos agradáveis. Tem o estresse do trânsito ruim, os serviços públicos mal conduzidos, o transporte coletivo deficitário, as ilhas de calor derivadas de inúmeras supressões de árvores e incorporações de edifícios. Há ainda o constante medo da violência e o enfraquecimento da noção de coletividade, o que produz muitos habitantes egoístas e indiferentes a praças, parques, jardins, animais e vizinhos. E o mercado, para nos livrar da terrível rotina que criamos e endossamos, oferece fins de semana perfeitos a alguns quilômetros do caos. Em uma pousada, em um parque aquático, em um lugarejo bucólico que ainda está preservado de toda sorte de especulação.

Os apelos são sempre muito parecidos. Reencontrar-se com sua essência. Fazer um detox digital. Respirar um ar puro. Cuidar de você. Sair do celular e ter “conexões reais”. É tudo muito bacana. Mas, ora, isto não deveria estar em pauta no cotidiano de cidadãos, do poder público e de outras instituições relevantes? Ter sombra, áreas verdes, lazer de qualidade, ruas limpas e evitar o abuso dos smartphones não deveria ser algo corriqueiro? Não. Porque, no Brasil, qualidade de vida é exceção, e não regra. Além disso, não se trata de um artigo disponível diariamente, mas reservado a “momentos únicos e inesquecíveis”. E o pior, a gente aceita jogar esse jogo. A música, como sempre, ajuda a explicar as coisas, como neste trecho de “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes:

“A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira”

Que glória — e que tristeza, porque segue a inércia — que nossa cultura explique tão bem a alegre e lastimável condição que nos é reservada. Para aguentar, só mesmo lendo alguns livros.


(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível | Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com

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