Valadares ganhou um bar

FOTO: Pierry Aires | Arquivo/DRD

Era sábado. Um sábado com vários dos ingredientes que compõem um verdadeiro sábado. Tinha sol, céu azul, gente nas ruas, alguma agitação no comércio. Havia, sobretudo, aquela atmosfera que só é possível no sábado, quando, ali entre o fim da manhã e o início da tarde, o aroma da folga se mistura ao tempero do lazer. Tudo converge, o início de uma nova semana parece muito distante e as expectativas de 30 dias parecem caber em pouco mais de 30 horas.

Nesse sábado, com cara de sábado e pedigree de sábado, com samba, suor e sabadices, muitos já sabiam aonde ir. O encontro marcado era com o bolinho de carne com jiló, com o chope bem tirado, com o cheiro de petiscos em pleno preparo, com uma estufa cujo efeito só aquece o coração. O lugar para se estar era o Matí Cozinha de Mercado, no Mercado Municipal de Valadares. Por sinal, poucas coisas têm mais cara de um sábado do que um mercado raiz.

O bar estava cheio, o dono olhando tudo, a atendente enlouquecida com tantos pedidos. Cada espaço era disputado com a cordialidade típica de um mercado, os cantinhos recheados de gente a fim de degustar o instante e tomar parte da história. Havia muitos sorrisos. Mas era o último dia do Matí no local. Como já ficou claro, o cardápio da ocasião não trouxe lamentos, queixas ou gestos contrariados. Não. Todos ali pareciam entender que a cidade não estava perdendo um bar; mas, sim, havia ganhado um.

Durou muito menos do que a gente gostaria, é verdade. Mas deixou uma porção de legado. Apontou caminhos para nosso Mercado Municipal, um patrimônio que a cidade ama tanto e deveria amar ainda mais. Pode ser que aquela cozinha tenha preparado a receita de um futuro bacana para um centro comercial que deve conjugar ancestralidade e arrojo, que precisa manter sua rusticidade sem abrir mão de excelentes padrões de qualidade. Já há outras boas iniciativas desse tipo por lá, mas talvez a passagem meteórica do Matí seja o acontecimento que mais bem encarnou esse espírito — encarnou, misturou com jiló e fritou.

É possível que o Matí tenha chegado um pouco cedo para inaugurar esse novo tempo. Acontece. É bastante comum haver obras seminais cujos efeitos só serão digeridos e compreendidos bem depois de suas concepções. Na área da publicidade, por exemplo, grandes soluções surgem após muito trabalho, muita pesquisa, muita embriaguez de arte, observação e vida. Nesse processo, inúmeras propostas brilhantes e corajosas ficam pelo caminho. Mas é graças a elas que os avanços ocorrem. Ademais, a certa altura do irretocável poema “Procura da Poesia”, Drummond recomenda:

“Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.”

O Matí Cozinha de Mercado foi um belo poema em Valadares. Não pense que eu estou exagerando, porque não era só mais um bar. Ora, se o mundo é um balcão de disputas e negociações, em toda cidade bem-sucedida isso se dá com iniciativas públicas e privadas e com a adesão e a fiscalização de seus concidadãos. Quando tudo funciona, os resultados são ruas limpas e amigáveis, praças e parques que convidam à contemplação e ao lazer, bares que servem autoestima, dignidade, um convívio agradável e, por que não?, mais lucro. Mas Drummond já alertou que a poesia tem seu tempo certo. E nosso esclarecimento também.

O último dia do Matí foi bonito como o velório em vida feito pelo Bom Sujeito. Não há mais espaço aqui para falar sobre o Bom Sujeito, mas, se você não sabe do que se trata, procure e surpreenda-se. Também não há espaço para contar a história da belíssima canção “Drão”, do Gil, mas posso usar algumas linhas para mencionar um trecho:

“Drão, o amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar”

Os versos do Mercado Municipal seguem sendo fundamentais para nosso futuro. Assim como a prosa de um município cuja infraestrutura merece ser passada a limpo, para que os sábados tenham mais cara de sábados. E o Matí Cozinha de Mercado, por tudo que sintetizou, definitivamente não morreu. Foi uma semente muito bem plantada em nossa eterna utopia de cidade.


(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível | Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com

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