Anarquia sobre duas rodas nas ruas de Valadares

Imagem ilustrativa: Chat GPT

Valadares parece ter oficializado, nos últimos meses, um perigoso espetáculo urbano: desafiar a lei sobre duas rodas. Adolescentes em ciclomotores, bicicletas motorizadas barulhentas e motociclistas empinando motos (“dando grau”) dividem — ou melhor, disputam — as ruas como se o Código de Trânsito fosse mera sugestão.

Ciclomotores cruzam a cidade sem capacete, avançando sinais vermelhos, costurando entre carros, ocupando ciclovias e calçadas. Muitos condutores sequer têm idade ou habilitação. A cena se repete diariamente, em plena luz do dia, diante de todos. O mais alarmante não é apenas a imprudência escancarada — é a naturalização do absurdo.

Desde 1º de janeiro de 2026, a legislação é clara: ciclomotores de até 50cc ou elétricos de até 4kW precisam ser registrados. O condutor deve possuir CNH categoria A ou ACC. Capacete é obrigatório para motorista e passageiro. Equipamentos como retrovisores, farol, lanterna e setas não são opcionais. É proibido circular em calçadas, ciclovias e vias rápidas sem acostamento. Não há brechas. Não há “interpretação”. Há lei.

O que falta é cumprimento.

Enquanto isso, as chamadas bicicletas motorizadas — muitas adaptadas de forma artesanal — se multiplicam pela cidade. Motores improvisados, escapamentos adulterados, ruído ensurdecedor rasgando a madrugada e perturbando bairros inteiros. Sem qualquer padronização, sem fiscalização visível, sem respeito às normas. O resultado é uma combinação de poluição sonora, insegurança e sensação de abandono.

E como se não bastasse, cresce também o número de motociclistas que transformam vias públicas em palco para manobras perigosas. Empinar moto em avenida movimentada não é habilidade: é irresponsabilidade. Trafegar muito acima da velocidade permitida, cortar veículos, acelerar em áreas residenciais — tudo isso virou rotina. O “grau” pode render aplauso nas redes sociais, mas nas ruas ele coloca pedestres, motoristas e o próprio condutor em risco real.

Não se trata de implicância com jovens ou com motociclistas. Trata-se de segurança pública. Uma moto a alta velocidade ou equilibrada sobre uma roda não é entretenimento — é potencial acidente em movimento. E quando algo dá errado, a física não perdoa.

A pergunta inevitável permanece: se qualquer cidadão enxerga essas irregularidades todos os dias, por que a fiscalização parece tão discreta? Onde estão as operações sistemáticas? Onde está a aplicação rigorosa das penalidades previstas, muitas delas gravíssimas? Quando a ausência de ação se torna regra, a sensação transmitida é simples: pode continuar.

No Brasil, infelizmente, ainda prevalece a lógica de que só se respeita a regra quando ela dói no bolso — ou quando a tragédia acontece.

Mas a responsabilidade não é exclusiva do poder público. Pais e responsáveis que permitem que menores conduzam ciclomotores ou veículos irregulares também assumem sua parcela de culpa. Entregar um veículo a quem não tem preparo não é demonstração de confiança; é negligência travestida de liberdade. Educação para o trânsito começa em casa — ou deveria.

Valadares precisa decidir se continuará assistindo à transformação de suas ruas em território de improviso, barulho e risco, ou se tratará o problema com a firmeza que ele exige. Lei que não é aplicada vira enfeite. Fiscalização que não aparece vira discurso vazio. E trânsito sem respeito vira estatística.

No fim, não se trata de moralismo ou perseguição. Trata-se de ordem, responsabilidade e, acima de tudo, vida. Porque no trânsito, a imprudência não avisa quando vai cobrar — apenas cobra.


(*) Jornalista

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