Mazelas de nosso futebol 

As mazelas predominantes em nosso futebol refletem uma complexa crise estrutural que vai muito além das quatro linhas. Embora sejamos reconhecidos mundialmente como “o país do futebol” e exportando talentos brutos para todas as partes do mundo, a gestão interna do esporte no país padece de problemas crônicos.

Tal decadência organizacional compromete o espetáculo, afasta torcedores dos estádios e enfraquece a competitividade de nossos clubes em longo prazo, passando por gestões totalmente amadoras e passionais, chegando ao endividamento em um percentual altíssimo de grande parte de nossos clubes.

Nossos dirigentes são desprovidos de formação técnica em administração esportiva, o que implica em improvisações de todos os tipos, passando por antecipação de receitas, contratações impensadas e fora da capacidade financeira e endividamentos bilionários. Com o surgimento da Lei da SAF, estas ainda carecem de transparência e governança rígida.

Regra geral, a esmagadora maioria dos futebolistas de nosso país são originários das periferias urbanas e comunidades de baixa renda das regiões mais carentes e sofridas de nosso povo, funcionando o futebol como um dos principais mecanismos de mobilidade social e econômica para jovens das camadas mais populares. 

O nível educacional e cultural de nossos jovens futebolistas é historicamente marcado por vulnerabilidades, com transformações ainda insuficientes. A carreira exige dedicação precoce, o que frequentemente gera um conflito direto com desempenho e a permanência na escola. A triste conclusão é que nossos atletas, raríssimas exceções, não recebem e não são educados.

O resultado reflete-se na conduta dentro das quatro linhas com a prática rotineira de ilicitudes, ações e procedimentos fantasiosos, reprováveis, censuráveis e que maculam a imagem de nosso futebol aos olhares de um mundo exterior. A má formação na base e respectivas condutas, refletem-se nas categorias que se seguem.

Adriano, o Imperador, consagrado no Flamengo, na Seleção Brasileira e na poderosa |Inter de Milão, agora com pouco mais de 40 anos de idade, o que virou? Caminha para um mundo tortuoso, de ilicitudes, que fatalmente o levarão para as páginas policiais.

O milionário Neymar Júnior que poderia ter sido um dia considerado “o melhor do mundo”, tem tido comportamentos reprováveis dentro e fora das quatro linhas. O que disse para a árbitra Edina Alves Batista, se ocorrido em um país sério, poderia lhe render pesada punição. Péssimo exemplo.

CACÁ, zagueiro do Vitória da Bahia, teve comportamento deplorável ao tentar ‘rasgar’ a camisa do Esporte Clube Bahia exibida em comemoração por um defensor deste último, por ocasião do clássico maior dos baianos. Comemoração, sem provocação, faz parte do espetáculo.

Uma criança de apenas 8 anos de idade, ferrenho e confesso torcedor do Corinthians de São Paulo, ao registrar sua admiração e simpatia pelo defensor santista Neymar, dele obteve a atenção devida, recebendo do mencionado atleta uma camisa de presente. Foi hostilizado, censurado e quase agredido por marmanjos que se dizem torcedores de futebol. Não o são. 

Inúmeras outras situações e condutas poderiam ser aqui enumeradas, configurando e constatando o desnível cultural e educacional presentes na vida futebolística de nosso país, envolvendo todos os tipos de atores que dela participa.

A melhoria educacional dos futebolistas de nosso país passa por uma política integrada que alinhe formação acadêmica, o desenvolvimento do cidadão e rotina de treinamentos, em patamar elevado. Há de se ter em mente cooperação institucional, fiscalização para valer e incentivos pedagógicos.

Clubes, federações e instituições de ensino devem buscar calendários unificados, parcerias com redes de ensino, ajustando horários de treinamentos e respectivas competições, firmando, para tanto, convênios ou estruturas escolares próprias. Tarefa para quem se diz “Clube Formador”. Pobre futebol brasileiro.


(*) Ex-atleta

FOTOS: Arquivo pessoal

N.B. 1– Ver a “macaca” Ponte Preta e o América das Minas Gerais na situação atual é de cortar o coração. É grande o desafio de gerir clubes de futebol profissional nos tempos em que vivemos.

N.B .2 – O que dizer do todo poderoso Internacional de Porto Alegre caminhando celeremente em direção à série B do Brasileirão? Difícil de entender.

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