Dependência e morte

FOTO: Magnific

Quando o país perde a independência, mas insiste em chamar isso de patriotismo

Mais um 7 de setembro. Chegou aquele momento em que recordamos o brado retumbante de um povo heroico, ouvido às margens plácidas do Rio Ipiranga. Tal qual a letra do nosso belíssimo Hino Nacional — que, em pleno século 21, muita gente ainda não entende nem sabe cantar direito.

E, se eu dissesse que o momento é de reflexão, seria praticamente “chover no molhado”. Porque, todos os anos, a gente segue a mesma rotina: recordamos o momento histórico daquela data, em 1822, enaltecemos nossos “heróis”, colocamos Dom Pedro I num pedestal, assim como José Bonifácio e tantos outros que contribuíram para que aquele momento se tornasse realidade.

Num passado distante, lembro-me de que, logo após as férias de julho, retornávamos às aulas já ansiosos pelos ensaios para o aguardado desfile pelas avenidas de Valadares — Minas Gerais e Marechal Floriano. O clima cívico contagiava aqueles memoráveis tempos. Em uma ocasião, até carreguei a bandeira do Brasil, orgulho maior de um garoto que ainda começava a descobrir o verdadeiro sentido daquela data.

O fato de ter estudado no Colégio Adventista — ainda na Avenida Brasil — e no histórico Colégio Tiradentes ajudou sobremaneira a definir meus valores, princípios e ideais, não apenas no aspecto do civismo. Eu era apaixonado pelas aulas de Educação Moral e Cívica e de Organização Social e Política Brasileira. Posso dizer que elas foram um norte para compreender aspectos fundamentais de uma sociedade que, naquela época, ainda dava os primeiros passos rumo à redemocratização.

Três décadas depois, tendo convivido com gerações diferentes e em ambientes completamente distintos daqueles das minhas origens, olho para o que essa data representava e percebo que, nos dias de hoje, infelizmente, o 7 de setembro parece ser apenas mais um feriado.

A subserviência do Brasil a interesses espúrios e particulares tem sido a tônica dos últimos anos. E, mesmo diante de tantas evidências, o brasileiro segue a sina de eleger e reeleger raposas da velha política, que pouco ou nada acrescentam — a não ser dinheiro público acumulado em seus próprios bolsos.

Os partidos políticos tentaram se reorganizar, mudaram as siglas, a nomenclatura, reinventaram discursos e estratégias. Mas o panorama parece ter ficado ainda mais circense.

Você deve se lembrar de um antigo vereador valadarense, Adilson Alves, eleito nos anos 90 muito mais pelo discurso do que pela formação. Ele dizia: “Nasci no dia 7 de setembro, sou formado em Contabilidade e Administração Pública…”. Aquilo, naquela época, era caricato. Hoje, tornou-se quase um requisito.

E o que vemos em todo o país é mais uma variante do chamado FeBeAPá — sic —, expressão cunhada pelo saudoso escritor Sérgio Porto, mais conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, para resumir o que ele chamava de “Festival de Besteiras que Assola o País”.

Sim, a gente assiste ao horário político não necessariamente para decidir em quem vai votar, mas para dar algumas boas gargalhadas e analisar o marketing de cada candidato. Tempos difíceis.

Aliás, à medida que os anos passam, a política se deteriora de tal forma que vemos candidatos “patriotas” defendendo abertamente a subserviência aos Estados Unidos, a liberação das armas para a população e temas polêmicos como aborto e eutanásia — questões que, em tempos idos, seriam capazes de retirar centenas ou milhares de votos.

Por isso, sigo dizendo, questionando e lamentando a cada 7 de setembro: os tempos são cada vez mais sombrios.

Dependemos das novas gerações para mudar esse cenário. O problema é que elas também parecem estar herdando, além dos desafios do futuro, os vícios de uma política que insiste em se reinventar apenas para continuar exatamente igual.

E talvez nós, que vivemos aqueles mágicos anos 80 e 90, morreremos sem entender plenamente o estranho comportamento social e político de uma geração que parece ter transformado convicções em conveniências e patriotismo em discurso de ocasião.

Mas há algo ainda mais preocupante: chegamos ao ponto em que já não discutimos apenas a qualidade dos nossos políticos, mas a nossa própria dependência deles. Dependemos de quem elegemos para decidir o rumo do país, enquanto continuamos elegendo — e, não raro, reelegendo — aqueles que ajudaram a nos trazer até aqui.

Talvez esta seja a nossa maior tragédia: temos uma das mais antigas democracias da América, uma das maiores nações do planeta e, ainda assim, conseguimos produzir uma geração política que parece cada vez menor diante do tamanho do Brasil.

E assim seguimos, ano após ano, hasteando a bandeira, cantando o Hino Nacional e celebrando uma independência conquistada há mais de dois séculos.

Só falta descobrir de quem, afinal, precisamos nos tornar independentes agora.

Porque independência de verdade não é apenas deixar de pertencer a outro país. É deixar de pertencer aos velhos vícios que nos impedem de construir um novo.


(*) EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou no Diário do Rio Doce, Rádio Globo/CBN, Rede Novo Tempo de Comunicação, foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FAGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.

SIGA-NOS em facebook.com/emdiacomonossotempo.

ACESSE nosso canal em youtube.com/@pontodeencontroentrevista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

Sepulcros caiados

Viver em sociedade e dela participar se traduz em compartilhar regras, respeitar diferenças e colaborar ativamente para o bem comum de todos, em especial dos menos favorecidos pela sorte. É

Um livro que revisita nossa história

Olá, leitor do Diário do Rio Doce. Hoje trago uma reflexão que nasce aqui, em Governador Valadares, e ultrapassa as fronteiras da nossa região. O jovem Andrew Amaral, recém-formado em

Investir é dar direção aos sonhos

Por muito tempo, investir foi visto como algo distante da realidade da maioria dos brasileiros. A imagem de que apenas pessoas com grande patrimônio poderiam acessar o mercado financeiro acabou