Era sábado. Um sábado com vários dos ingredientes que compõem um verdadeiro sábado. Tinha sol, céu azul, gente nas ruas, alguma agitação no comércio. Havia, sobretudo, aquela atmosfera que só é possível no sábado, quando, ali entre o fim da manhã e o início da tarde, o aroma da folga se mistura ao tempero do lazer. Tudo converge, o início de uma nova semana parece muito distante e as expectativas de 30 dias parecem caber em pouco mais de 30 horas.
Nesse sábado, com cara de sábado e pedigree de sábado, com samba, suor e sabadices, muitos já sabiam aonde ir. O encontro marcado era com o bolinho de carne com jiló, com o chope bem tirado, com o cheiro de petiscos em pleno preparo, com uma estufa cujo efeito só aquece o coração. O lugar para se estar era o Matí Cozinha de Mercado, no Mercado Municipal de Valadares. Por sinal, poucas coisas têm mais cara de um sábado do que um mercado raiz.
O bar estava cheio, o dono olhando tudo, a atendente enlouquecida com tantos pedidos. Cada espaço era disputado com a cordialidade típica de um mercado, os cantinhos recheados de gente a fim de degustar o instante e tomar parte da história. Havia muitos sorrisos. Mas era o último dia do Matí no local. Como já ficou claro, o cardápio da ocasião não trouxe lamentos, queixas ou gestos contrariados. Não. Todos ali pareciam entender que a cidade não estava perdendo um bar; mas, sim, havia ganhado um.
Durou muito menos do que a gente gostaria, é verdade. Mas deixou uma porção de legado. Apontou caminhos para nosso Mercado Municipal, um patrimônio que a cidade ama tanto e deveria amar ainda mais. Pode ser que aquela cozinha tenha preparado a receita de um futuro bacana para um centro comercial que deve conjugar ancestralidade e arrojo, que precisa manter sua rusticidade sem abrir mão de excelentes padrões de qualidade. Já há outras boas iniciativas desse tipo por lá, mas talvez a passagem meteórica do Matí seja o acontecimento que mais bem encarnou esse espírito — encarnou, misturou com jiló e fritou.
É possível que o Matí tenha chegado um pouco cedo para inaugurar esse novo tempo. Acontece. É bastante comum haver obras seminais cujos efeitos só serão digeridos e compreendidos bem depois de suas concepções. Na área da publicidade, por exemplo, grandes soluções surgem após muito trabalho, muita pesquisa, muita embriaguez de arte, observação e vida. Nesse processo, inúmeras propostas brilhantes e corajosas ficam pelo caminho. Mas é graças a elas que os avanços ocorrem. Ademais, a certa altura do irretocável poema “Procura da Poesia”, Drummond recomenda:
“Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.”
O Matí Cozinha de Mercado foi um belo poema em Valadares. Não pense que eu estou exagerando, porque não era só mais um bar. Ora, se o mundo é um balcão de disputas e negociações, em toda cidade bem-sucedida isso se dá com iniciativas públicas e privadas e com a adesão e a fiscalização de seus concidadãos. Quando tudo funciona, os resultados são ruas limpas e amigáveis, praças e parques que convidam à contemplação e ao lazer, bares que servem autoestima, dignidade, um convívio agradável e, por que não?, mais lucro. Mas Drummond já alertou que a poesia tem seu tempo certo. E nosso esclarecimento também.
O último dia do Matí foi bonito como o velório em vida feito pelo Bom Sujeito. Não há mais espaço aqui para falar sobre o Bom Sujeito, mas, se você não sabe do que se trata, procure e surpreenda-se. Também não há espaço para contar a história da belíssima canção “Drão”, do Gil, mas posso usar algumas linhas para mencionar um trecho:
“Drão, o amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar”
Os versos do Mercado Municipal seguem sendo fundamentais para nosso futuro. Assim como a prosa de um município cuja infraestrutura merece ser passada a limpo, para que os sábados tenham mais cara de sábados. E o Matí Cozinha de Mercado, por tudo que sintetizou, definitivamente não morreu. Foi uma semente muito bem plantada em nossa eterna utopia de cidade.
(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível | Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com
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