Um samba para saber de si: quando Vinícius cantou para Paolo Sorrentino

FOTO: Freepik

“A quem pertencem os nossos dias?” Essa frase assola a personagem Mariano De Santis (Toni Servillo), no filme “A Graça”, do diretor Paolo Sorrentino. Na película, Mariano de Santis é o presidente da Itália e vive impasses pessoais e também acerca da decisão de assinar ou não uma lei que regularizaria a eutanásia no país, além de alguns casos em que condenados solicitam perdão ou, mais precisamente, graça.

A película é esplendorosa, e os diálogos, interessantíssimos. No entanto, nos importa aqui uma reflexão que dialoga entre a gestão de conflitos e a pergunta existencial que nos é lançada: “A quem pertencem os nossos dias?”

Esta reflexão se faz importante, uma vez que, a cada encontro ou desencontro em nossas relações sociais, por certo, estamos a responder, mesmo que silenciosamente, a quem pertencem os nossos dias. Quando nos desvencilhamos de uma relação, decidimos seguir sem algumas pessoas; quando nos mantemos em uma relação, e isso vale para as relações as mais diversas, estamos a decidir com quem dividiremos nossos dias.

Do mesmo modo, a maneira como conduzimos os nossos conflitos também acaba por reavivar a pergunta que vem no filme. Ou seja, sempre que nos deparamos com uma situação conflitiva, várias são as possibilidades de lidarmos, desde o revide impensado e instantâneo, passando pela ponderação demorada, até mesmo a esquiva da resposta. Todas são maneiras de se reagir, importando medir qual o grau de efeitos estamos dispostos a suportar, mesmo sabendo que o outro é sempre imprevisível em sua resposta.

Assim, a elaboração da decisão e/ou resposta perpassa por uma espécie de autoconhecimento, já que, como nos ensina Jean-Paul Sartre, estamos condenados à liberdade, e essa condenação também é uma resposta à pergunta: a quem pertencem nossos dias? Não saber de si talvez seja um refúgio para entregar ao outro as consequências de nossa vida. E isso nos conduz a outra frase de Sartre: “o inferno são os outros”.

Ao contrário dessa postura, que, no limite, evidencia uma espécie de autocentramento questionável, na qual a pessoa sempre é vítima do erro alheio, podemos meditar sobre uma postura consciente, ou pelo menos que se deseja assim, e, nesta medida, reconhecendo nossos limites, virtudes, saberes e não saberes, atuarmos sobre os conflitos com a necessária ausência de certeza que nos ensina a prudência e, ao mesmo tempo, com um grau de protagonismo, para que nossa marca não reste apagada de nossa própria biografia.

Por certo, não se trata de responder em definitivo ao dilema. Os termos para sempre e nunca mais não são bons aliados nestes casos, tampouco quanto aos conflitos, uma vez que eles variam, tanto no tempo como no espaço; mas vale compreender que de encruzilhadas é que se constitui a vida humana. Para além de posições inertes ou excessivas, o dilema, tal qual o conflito, sugere demora.

De certo jeito, o verbo demorar colabora com nossa sugestão. Um dilema e um conflito podem alterar o rumo de nossa existência, por isso, pode ser que morar novamente, ou seja, de-morar, seja uma boa saída para esta questão.

Gerir conflitos é também morar em si mesmo, o que requer muitas idas e vindas, vidas e idas; tal qual responder a dilemas, que nada mais é do que responder como desejamos morar. E, lembrando Vinícius, a vida é p’ra valer, e não se engane não, tem uma só…


(*) Doutor em Teoria do Direito pela PUC/MG. Pós-doutorado pela FDV. Coordenador e Professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor do Mestrado em Gestão Integrada do Território e do curso de Direito da Universidade Vale do Rio Doce.

Instagram: @bernardogbn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

O modelo político do Brasil faliu

Quando uma empresa, associação, instituição ou até mesmo as contas familiares entram no vermelho, algo urgentemente precisa ser feito. Quando os valores e os princípios de uma coletividade corroem os

Sempre foi assim…

Quando as circunstâncias mudam, mas o hábito permanece Durante cinco gerações, todas as mulheres de uma família preparavam o pernil da mesma maneira: antes de levá-lo ao forno, cortavam suas

Estudante: o novo excluído

Parece estranho ler o título deste artigo. Mas ele é real. Tenho observado, como professor, que, ano após ano, estamos criando um novo grupo de excluídos: os estudantes. Historicamente, a

Retrato na parede

O Coopevale Futebol Clube de Governador Valadares, agremiação esportiva instalada e em funcionamento no Bairro São Paulo, nas proximidades do Parque de Exposições, acaba de completar 57 anos de sua