A Copa que Quebrou Todos os Recordes

E nos fez redescobrir o prazer de acompanhar um Mundial

Terminou no domingo aquela que já pode ser considerada uma das maiores — e, sem dúvida, uma das melhores — Copas do Mundo de todos os tempos. Especialmente pela vitória espanhola.

No calor da torcida, é comum pensar que Copa boa é aquela em que a nossa seleção levanta a taça. Nem sempre.

Se fosse assim, 1982 jamais ocuparia um lugar tão especial no coração de milhões de brasileiros.

Esta foi a minha 13ª Copa do Mundo. Isso significa que acompanhei exatamente metade dos Mundiais já realizados desde 1930. Tempo suficiente para entender que existem Copas inesquecíveis mesmo quando o Brasil fica pelo caminho.

Minha primeira lembrança é da Espanha, em 1982. Vi uma seleção desfilar talento, criatividade e um futebol que parecia arte. O favoritismo acabou transformado nas lágrimas de um menino de apenas dez anos, mas nem por isso deixou de ser uma Copa extraordinária.

Quatro anos depois, novamente favoritos, caímos diante de uma sólida França. Enquanto isso, Diego Armando Maradona transformava o Mundial mexicano em seu palco particular, eternizando, contra a Inglaterra, aquele que para muitos continua sendo o gol mais bonito da história das Copas.

Os anos 90 começaram de maneira amarga. Maradona voltou a eliminar o Brasil nas oitavas, e a Alemanha conquistou um título em uma Copa marcada por poucos gols e pouca inspiração. Em 1994, o futebol continuou excessivamente pragmático, mas o tetra compensou qualquer crítica.

Na França, em 1998, o nível técnico voltou a crescer. O mundo assistiu, perplexo, ao drama vivido por Ronaldo horas antes da decisão. Depois, vieram os inesquecíveis 3 a 0 da França e o primeiro título dos “Bleus”.

Em 2002, poucos acreditavam naquela seleção. Mas a “Família Scolari” escreveu uma das histórias mais improváveis da nossa trajetória e trouxe o pentacampeonato em uma Copa repleta de viradas, emoção e grandes atuações.

A Alemanha, em 2006, também proporcionou um espetáculo memorável. Tínhamos uma seleção estrelada, mas até hoje me pergunto por que Roberto Carlos resolveu ajeitar o meião justamente na cobrança de falta que mudou nossa história. A França voltou a cruzar nosso caminho e, na final, acabou derrotada pela Itália.

Confesso que a África do Sul, em 2010, não me empolgou tanto. Foram poucos jogos realmente marcantes. Ainda assim, a decisão inédita entre Espanha e Holanda deu brilho ao encerramento de um torneio que parecia caminhar para a monotonia.

Em 2014, recebemos o mundo em casa. Tive o privilégio de assistir a um jogo dentro do estádio e sentir de perto a atmosfera de uma Copa disputada no Brasil. Tudo parecia preparado para o hexacampeonato… até surgir uma Alemanha no meio do caminho. O 7 a 1 deixou de ser apenas um placar e se transformou numa cicatriz permanente da nossa história esportiva.

Na Rússia, em 2018, a competição cresceu rodada após rodada. Caímos diante da Bélgica e vimos uma França liderada por um jovem Mbappé conquistar o título sobre a valente Croácia.

No Catar, em 2022, talvez tenhamos assistido à final mais emocionante da história das Copas. O Brasil parou novamente nas quartas, desta vez diante da Croácia, enquanto Lionel Messi finalmente levantava a taça que faltava para coroar uma carreira extraordinária.

E chegamos a 2026.

O roteiro reservou menos surpresas do que muitos imaginavam. Os grandes protagonistas fizeram valer seu favoritismo. Messi, Mbappé, Haaland, Harry Kane, Vini Júnior… os artilheiros apareceram, os gols voltaram a ser abundantes e a competição registrou uma das maiores médias ofensivas das últimas décadas.

Nem tudo, porém, foi motivo de celebração.

O torneio também ficará marcado por erros de arbitragem — muitos deles cercados de enorme polêmica — e pela presença quase constante da política em um palco que deveria pertencer apenas ao futebol. Em vários momentos, a sensação foi de que fatores externos insistiam em dividir o protagonismo com aquilo que acontecia dentro das quatro linhas.

O Brasil, quando finalmente parecia encontrar seu caminho, venceu o Japão na “bacia das almas” e reacendeu a esperança do torcedor. Acreditamos que seria possível superar a poderosa Noruega. Não foi. Mais uma vez, paramos antes da hora.

Depois de 101 partidas, Espanha e Argentina protagonizam uma final inédita.

De um lado, uma equipe que transformou organização, posse de bola e regularidade em marca registrada. Do outro, uma seleção que fez da raça e da capacidade de reagir sua maior identidade durante todo o torneio. E a vitória foi Espanhola: 1 a 0 na prorrogação. Enfim, o futebol venceu.

Porque uma Copa do Mundo nunca é apenas sobre quem ergue o troféu. Ela é feita das tardes em família, das superstições repetidas a cada jogo, dos amigos reunidos diante da televisão, das crianças que descobrem seus primeiros herois, da troca de figurinhas no Shopping e das memórias que insistem em permanecer muito depois do apito final.

Daqui a quatro anos haverá outra Copa.

Outra bola vai rolar.

Outros craques surgirão.

Mas, como acontece desde 1930, milhões de pessoas voltarão a fazer exatamente a mesma coisa: interromper a rotina para acreditar, durante um mês, que o mundo inteiro cabe dentro de um campo de futebol. E talvez seja justamente esse o maior título que uma Copa do Mundo pode conquistar.


EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou no Diário do Rio Doce, Rádio Globo/CBN, Rede Novo Tempo de Comunicação, foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FAGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal. SIGA-NOS em facebook.com/ emdiacomonossotempo. ACESSE nosso canal em youtube.com/@ pontodeencontroentrevista.

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