O Carnaval já é um evento consagrado por uma parcela considerável de brasileiros há muito tempo. Mesmo quem não gosta da festa — ou já se aposentou do nobre ofício de correr atrás do trio — curte os dias para descansar, ler livros, ver filmes e séries, fazer um retiro espiritual. Outros — e não são poucos — amam o período para fazer um extra e salvar o ano, ou pelo menos o início dele. Assim, a folia torna-se, de fato, o retrato mais fiel de um país alegre e contraditório.
É importante destacar que o bloco da alegria e do ufanismo esteve mais animado nos dois últimos Carnavais. Além da tradicional festa em tantos lugares, nas edições de 2025 e 2026 o Brasil foi celebrado por motivos distintos da folia, mas que também exaltam nossa criatividade, nossa competência e o vastíssimo rol de atividades nas quais podemos ter excelência — sim, muito gringo ainda acha que a gente só sabe fazer Carnaval.
Em 2025, nosso primeiro Oscar veio com “Ainda Estou Aqui” em um domingo de Carnaval. Era um dia 2 de março, data em que muitos “cinefoliões” tiveram que se desdobrar para conciliar as fantasias da festa com a realidade que viria da boca da atriz espanhola Penélope Cruz, que anunciou o vencedor da estatueta de melhor filme internacional. Ela foi a voz que eternizou uma obra sobre a história brasileira em uma outra história. A história do cinema mundial.
Já no dia 14 de fevereiro deste ano, durante outro Carnaval, a conquista inédita foi ainda mais surpreendente. O jovem Lucas Pinheiro Braathen esquiou para a glória com a elegância de um mestre-sala e ganhou a primeira medalha do Brasil — e de toda a América Latina — em uma edição dos jogos olímpicos de inverno. Poderia ser um bronze, e seria lindo. Poderia ser uma prata, e seria esplêndido. Mas foi ouro, um primeiro lugar inesquecível e irretocável. HISTÓRICO!
Nosso cinema é respeitado há muitas e muitas décadas. Por isso, um Oscar era algo que viria mais cedo ou mais tarde. Já um ouro olímpico na neve, com isso poucos contavam. Penso que esta conquista nos deixou orgulhosos de um jeito diferente. Por acaso — ou nem tanto —, o feito inédito no cinema veio do filme de um diretor bilionário, herdeiro de um banqueiro. Já a medalha foi conquistada por um rapaz nascido em Oslo, filho de um norueguês com uma brasileira. Sou muitíssimo fã do Walter Salles e recomendo tudo que ele fez no cinema. E fiquei superfeliz com a alegria e a entrega de Lucas vestindo verde e amarelo. Para mim, ser quem são não reduz os méritos deles, mas diz muito sobre o Brasil — em vários aspectos.
Emocionando, Lucas Pinheiro disse palavras bem bonitas após sua consagração. Foi humilde, atencioso e grato ao país. Chegou a afirmar que “não importa onde você está, suas roupas, cor da pele, o que importa é o que está aqui dentro”. Impossível, para minha geração, não recordar um trecho da belíssima “Nem 5 Minutos Guardados”, música dos Titãs, presente no fabuloso álbum “Acústico MTV”:
“Tanto faz qual é a cor da sua blusa
Tanto faz a roupa que você usa
Faça calor ou faça frio
É sempre Carnaval no Brasil”
É compreensível que venham discursos assim em momentos de euforia. No caso dos Titãs, poesia pura. Em relação ao Lucas, a declaração não o torna ingênuo, mas tudo aquilo — o lugar, a cor da pele e as roupas — tem um peso enorme na sociedade. Em 2017, uma atriz famosa, linda, branca e que está sempre bem vestida foi a estrela da campanha publicitária de um papel higiênico na cor preta. O mote era “Black is Beautiful”. Foi um fiasco, porque, entre tantos poréns, banalizou uma história de luta do movimento negro.
Por sinal, foi na última terça-feira de Carnaval que Vini Jr. recebeu insultos de um jogador argentino do Benfica, em Portugal. O jogo era válido pela Champions League, o maior e mais organizado torneio de clubes do planeta. Segundo Mbappé, astro francês e colega de Vini, o atleta adversário teria chamado o brasileiro de macaco por cinco vezes. Vini é riquíssimo e veste a camisa do maior clube de futebol do planeta. Neste caso, realmente a roupa fez pouca diferença.
Enfim, é sempre Carnaval no Brasil no sentido de que, o ano inteiro, festejamos, vencemos e somos vilipendiados, “tudo ao mesmo tempo agora” — para usar o nome de outro álbum dos Titãs. A propósito, comentei que muito gringo acha que a gente só sabe fazer Carnaval? Eu estava enganado. Vários incluem aí o futebol também. Mas tem gente que admira apenas os brasileiros dos seus times — quando admira. Aos demais, resta serem chamados de macacos, dentro e fora de campo.
(*) Jornalista e publicitário. Professor na Univale e poeta sempre que possível. Instagram: @bob.villela Medium: bob-villela.medium.com
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