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Pare de se enganar e admita esse gozo camuflado

A tese que pretendo demonstrar ao longo deste artigo é bastante simples: frequentemente ocultamos nossas verdadeiras (e não tão nobres) motivações por trás de argumentações pretensamente racionais. Em Psicanálise, esse tipo de procedimento mental é chamado de racionalização. Trata-se de um dos inúmeros mecanismos de defesa que podemos utilizar para protegermos nossa autoimagem do reconhecimento de determinados desejos que “não pegariam bem”, por assim dizer. Em outras palavras, estamos falando do bom e velho autoengano. Vou trazer alguns exemplos para que você entenda a que estou me referindo.

Nos últimos anos, alguns famosos “influencers” que fazem sucesso no Instagram têm postado fotos e vídeos em estandes de tiro e defendido a posse de armas. Qualquer pessoa razoavelmente observadora consegue perceber com muita facilidade que a exibição que tais influenciadores fazem de suas pistolas e revolveres é parte de um esforço para demonstrarem uma suposta virilidade que deveria ser expressa por todo homem. Dito de modo mais simples: a arma funciona para essas pessoas como um signo de masculinidade. A exibição do armamento lhes ajuda a se apresentarem para suas audiências como “homens de verdade”.

No entanto, você não os verá em nenhum momento confessando essa obviedade. Em vez disso, eles falarão o tempo todo que a arma é um instrumento absolutamente necessário para a garantia da própria segurança e a proteção da família. Ainda que a maioria deles more em condomínios e apartamentos com um nível de segurança que 99% da população não pode ter, tentarão convencer você que ter uma pistola em casa é uma necessidade absoluta na vida de todo “pai de família”.

Eles poderiam muito bem dizer para suas audiências que gostam de armas porque ter algumas delas em casa os faz se sentirem mais masculinos, mais viris, mas… isso não pegaria bem, né? Por isso, ocultam essa motivação que, cá para nós, é bastante infantil, por meio da desculpa de que estão preocupados com a segurança de suas famílias.

Outro exemplo é o gozo voyeurista que está por trás do nosso consumo de notícias. Supostamente as pessoas assistem aos jornais e leem reportagens nos portais de notícia porque precisam saber o que está acontecendo no mundo. No entanto, eu convido você a fazer um exercício: da próxima vez em que for assistir a um programa de notícias na televisão, verifique quais daquelas informações que você recebeu ao longo do jornal realmente farão diferença na sua vida. Seja criterioso: não adianta dizer, por exemplo, que saber quanto foi o último aumento da taxa Selic impactará seu dia a dia porque os preços dos produtos podem sofrer alteração por conta disso. Afinal, a influência da taxa de juros na economia não depende do seu conhecimento acerca dela e simplesmente saber que a Selic subiu de 3,5% para 4,25% não é uma informação necessária para a tomada de decisão de 99% das pessoas.

Se você fizer o exercício que estou lhe propondo com rigor, perceberá que, com exceção de algumas pouquíssimas notícias locais (como a faixa etária que está sendo vacinada neste momento, por exemplo), todas as demais informações que chegarão a você são absolutamente irrelevantes para sua vida. E quando digo que são irrelevantes é no sentido de que a sua existência permaneceria rigorosamente a mesma se você não as tivesse recebido. Ah, Lucas, mas eu preciso estar bem-informado sobre o que acontece na política. Por quê?Por acaso saber o que está se passando na CPI da Covid fará alguma diferença real na sua vida? Você tem como influenciar os rumos desses acontecimentos mediante as informações que receberá acerca deles?

Seja sincero. No fundo, o desejo que nos anima a consumirmos notícias é a boa e velha curiosidade, ou seja, o mesmo tesão de saber que nos excita quando nos contam uma fofoca qualquer. Quem é honesto consigo mesmo reconhece que o desejo de saber como foi o depoimento do deputado Fulano de Tal na CPI é apenas um tesão pela novidade, pela descoberta e não a expressão de uma suposta “preocupação com os rumos do país”. Nós somos muito menos sérios do que imaginamos. Quem fica ligado o dia inteiro nos canais e portais de notícia não é tão diferente de quem passa horas e horas nos perfis de fofoca no Instagram.

Veja bem: se você é uma dessas pessoas que adora consumir notícias sobre economia, política e outras questões “sérias”, não estou dizendo que deva parar de fazê-lo. Todavia, talvez lhe seja salutar deixar de pensar em si mesmo como alguém superior aos supostamente “alienados” que não estão nem aí para os conflitos entre o governo e o STF. Talvez lhe faça bem reconhecer que o “se manter bem-informado” é apenas uma forma de diversão tão banal quanto assistir a jogos de futebol ou acompanhar a novela das nove.

Do mesmo modo, faria bem para os referidos influenciadores que adoram “mostrar a pistola” em seus stories admitirem que a arma funciona para eles como um signo fálico. Talvez esse reconhecimento os ajudaria a repensarem sua relação com os ideais de masculinidade com os quais andam flertando. Como dizia certo judeu do primeiro século, “a verdade liberta”.


(*) Dr. Lucas Nápoli – Psicólogo/Psicanalista; Doutor em Psicologia Clínica (PUC-RJ); Mestre em Saúde Coletiva (UFRJ); Psicólogoclínico em consultório particular; Psicólogo da UFJF-GV; Professor do Curso de Psicologia da Faculdade Pitágoras GV e autor dos livros “A Doença como Manifestação da Vida” (Appris, 2013), “O que um Psicanalista Faz?” (Ebook, 2020) e “Psicanálise em Humanês: 16 Conceitos Psicanalíticos Cruciais Explicados de Maneira Fácil, Clara e Didática” (Ebook, 2020).

As opiniões emitidas nos artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores por não representarem necessariamente a opinião do jornal

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