Há 391 povos indígenas e quase 1,7 milhão de pessoas autodeclaradas no Brasil. Os dados mais recentes do IBGE, do Censo 2022, não são apenas estatísticas, são um chamado à realidade para quem está na linha de frente da gestão de recursos hídricos. Na Bacia Hidrográfica do Rio Doce, esses números têm rosto, território e, acima de tudo, voz.
Muitas vezes, ficamos presos a planilhas de outorgas, vazões e métricas de qualidade da água. São ferramentas essenciais, sem dúvida. Mas a gestão pública, para ser verdadeiramente eficiente, precisa reconhecer o rio como um organismo vivo. E poucos o compreendem tão profundamente quanto aqueles que o protegem há gerações.

Falar do Rio Doce sem considerar a pluralidade étnica que o sustenta é um erro estratégico. O protagonismo do povo Krenak e sua luta pelo sagrado Watu são fundamentais, mas a bacia é um mosaico mais amplo. Nas cabeceiras e rios afluentes mineiros, destacam-se Maxakali e Pataxó. No Médio Doce, a presença dos Xukuru-Kariri reforça essa diversidade. Na foz, no Espírito Santo, Tupiniquim e Guarani mantêm uma vigilância constante sobre o território. Soma-se a isso a retomada de identidade dos Puri nos afluentes mais altos. Esses povos ensinam, pela prática, sobre pertencimento, conexão, vínculo e tradição.
É preciso integrar o rigor da ciência à sabedoria de quem sempre soube cuidar das águas sem exauri-las. Por isso, nosso compromisso neste Dia dos Povos Indígenas é garantir que a mesa de decisões seja, de fato, polifônica.
O futuro do Rio Doce não será escrito apenas com instrumentos técnicos, mas com respeito às histórias que correm em suas margens. Somente ao ouvir essas vozes será possível, novamente, fazer do rio um espaço de vida plena para todos.
(*) Hernani Santana | Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH Doce)
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