Capim, São Raimundo, São Pedro, Altinópolis, Elvamar, Santos Dumont, Jardim Ipê, Vila dos Montes, Vila Isa, Cidade Nova, Grã-Duquesa e Santa Rita. Esses não são pontos isolados no mapa. São bairros onde, nos últimos dias, jiboias foram encontradas em telhados, quintais, ruas e até enroladas em motor de carro. Pequenas, médias, grandes — algumas chegando a cerca de dois metros.
A pergunta que ecoa é sempre a mesma: “Por que tantas cobras na cidade?”
Mas talvez a pergunta correta seja outra: o que fizemos com o habitat delas?
O desmatamento contínuo, a expansão imobiliária desordenada, as queimadas e até os alagamentos reduzem drasticamente abrigo e alimento na natureza. Quando a mata encolhe, a fauna não evapora. Ela se desloca. O que está acontecendo em Valadares não é uma invasão espontânea — é um êxodo forçado.
Sem presas suficientes, sem abrigo seguro e com áreas naturais cada vez mais fragmentadas, as jiboias buscam onde ainda há alguma condição de sobrevivência. Quintais com vegetação, terrenos baldios, locais com presença de roedores, áreas próximas a cursos d’água. A cidade avança sobre o verde e depois se espanta quando o verde reage.
É fundamental esclarecer: a jiboia (Boa constrictor) não é peçonhenta. Não possui veneno. Não representa risco de envenenamento. Pode, sim, reagir se for acuada — e sua mordida é dolorosa — mas não é um animal que ataca deliberadamente. O perigo real nasce do pânico, da desinformação e das tentativas imprudentes de captura.
Matar, ferir ou tentar capturar por conta própria não resolve o problema — apenas cria outro. Além de crime ambiental, é uma resposta ignorante a uma consequência previsível.
O que não é razoável é fingir surpresa diante de um cenário que vem sendo construído há anos. A redução de habitat, somada às queimadas e à ocupação crescente de áreas naturais, cria exatamente o ambiente para esse tipo de ocorrência. Cada nova área devastada aumenta a chance de encontros entre humanos e fauna silvestre.
Transformar a jiboia em vilã é confortável. Difícil é encarar que o verdadeiro desequilíbrio começa com a motosserra, o fogo e a ocupação sem planejamento.
Se nada mudar, os registros não ficarão restritos a Capim, São Raimundo, São Pedro, Altinópolis, Elvamar, Santos Dumont, Jardim Ipê, Vila dos Montes e Santa Rita. Outros bairros entrarão nessa lista.
Porque o problema não é a cobra que aparece.
É o habitat que desaparece.
(*) Jornalista
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