
Ouvi de Djalma Thurler, uma história por ele presenciada, na qual José Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina, descendo as escadas de um prédio em Salvador, já debilitado pela idade, ao invés de andar de degrau em degrau, começa a dançar e com isso torna mais fluida sua descida.
Essa imagem não pôde se desvencilhar de mim, entretanto, qual valia dela aqui nesta coluna, que se intitula Gestão de Conflitos, e que hoje se inaugura, inscrevendo-se na história do DIÁRIO DO RIO DOCE, que também é a história deste território.
A imagem de Zé Celso dançando quando desce uma escada não é apenas um fato corriqueiro de alguém que reinventou o teatro no Brasil; ao mesmo tempo em que ele descia, também cantarolava para Oxum, e assim, acionava o corpo em estado de potência inventiva; que anda, canta, respira, pausa, ginga e permanece. Instaura o corpo no tempo, mas não um tempo qualquer, e sim, o seu próprio. O corpo de Zé quando desce e dança, torna outra a escadaria, convida-a para uma outra forma de se colocar: agora não mais como um obstáculo a ser superado, ao contrário, transforma a escadaria em seu par, uma vez que ninguém dança sozinho.

Neste caminho, podemos anunciar como entendemos os conflitos. Eles, longe de serem meros entraves e/ou questões que devam ser eliminadas, são uma chance de inventividade. Ora, qualquer coisa que se invente, que mude de direção, que saia do modo automático, requer um desconforto, uma nova mirada; logo, os conflitos quando se colocam, apresentam uma dupla oportunidade: de um lado, para nos conhecermos melhor, vez que a pausa imposta pelo conflito nos faz refletir; de outro lado, quando regressamos da pausa, já não somos os mesmos, e é aí que reside a oportunidade de mudança, seja de rotas, de tons, mas sobretudo, uma mudança de perspectiva.

Não se trata de ignorar a face incômoda do conflito, mas sim, de observá-la sob outro prisma, permitindo com que a imaginação e nossos sentidos sejam tocados e acionados por essa nova imagem. Cada encontro é um conflito. Pois, para nos encontrarmos, é necessário que tenhamos a ética de convívio com a diversidade como condição para tal, e habitar a diversidade é estar em contato com a diferença, o outro, o conflito.
A arte é pedagógica para isto. Quando estamos em contato com obras artísticas, muitas vezes sentimos uma sensação de ausência de um elemento que nos acolha, que explique aquele instante. E é exatamente na ausência que habita o conflito, e, por consequência, o outro, uma vez que conflito e alteridade são notas de uma mesma canção – quer dizer, uma sem a outra, não dá samba.
Quando Zé dança na escada, a escada dança com Zé. Quando o conflito é percebido como esse outro, essa ausência, somos instados imediatamente à invenção; que ao fim é reinvenção de nós mesmos, de nossas relações, afetos. O corpo que dança desafia a lógica da escada, colocando um ponto de interrogação. O mesmo que assume vida quando o conflito vem: o que fazer? Como agir? Qual linguagem assumir?
“Dançar é mais fácil do que andar”, diria Zé Celso. Inventar é mais fácil do que brigar, diria eu.
(*) Doutor em Teoria do Direito. Professor do curso de Direito e do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades e do mestrado em Gestão Integrada do Território da Univale.
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