Quando o desafio de educar provoca turbulências
Um avião estava pronto para decolar do Aeroporto Internacional de Victoria, no Canadá, e seguia em direção à pista quando uma situação foi percebida: uma criança permanecia em pé no assento e se recusava a colocar o cinto de segurança. Todas as tentativas da tripulação e dos responsáveis pela criança para resolver o problema não tiveram sucesso.
Por segurança, o avião precisou retornar ao terminal e não pôde decolar, pois o horário-limite de operação da pista havia se esgotado, e todos os passageiros tiveram que desembarcar. O voo foi cancelado.
Esse seria apenas mais uma birra de uma criança mimada e sem limites ou aquela criança estaria assustada, insegura e com medo? Talvez nunca saibamos exatamente o que a criança estava sentindo. E justamente por isso, o episódio nos oferece uma oportunidade para pensar.
O que vemos é o comportamento. Mas o comportamento nem sempre conta toda a história daquilo que acontece dentro de uma pessoa. Comportamento e emoção estão profundamente relacionados. Uma criança que grita, chora, foge, se recusa ou se esconde pode estar expressando algo que ainda não consegue colocar em palavras. Poderia ser o caso de a criança estar com medo, sentindo ansiedade ou demonstrando resistência diante de um limite estabelecido.
Seja como for, será que temos aprendido a olhar para as pessoas para além do comportamento? Será que, às vezes, não nos apressamos em julgamentos como: “É uma criança malcriada!”, “É um menino rebelde e sem limites!” ou, como falamos às vezes a respeito de algum conhecido: “Fulano é uma pessoa difícil”?
Compreender as emoções e os sentimentos de alguém não significa permitir tudo, nem autorizar comportamentos inadequados. Se aquela criança estava com medo, deveria ter sido acolhida. Se estava em pânico, precisava de segurança. No entanto, o avião precisava permanecer em condições seguras para decolar. Uma coisa não elimina a outra.
Essa talvez seja uma das grandes dificuldades da educação contemporânea: confundir acolhimento com permissividade. Acolher uma criança ou adolescente não significa dizer: “Você pode fazer o que quiser porque está sentindo alguma coisa”.
Crianças ainda estão desenvolvendo a capacidade de autorregulação e, justamente por isso, precisam de adultos que lhes emprestem aquilo que elas ainda estão aprendendo a construir: calma, segurança, firmeza e direção. Elas estão aprendendo a viver em um mundo onde existem outras pessoas, regras, responsabilidades e consequências.
Quando a criança não consegue administrar suas emoções, o adulto não deve simplesmente entregar a ela o governo da situação, mas ajudá-la a recuperar o controle de si mesma.
Como pai de três filhos, sei que a tarefa de educar não é fácil. Exige presença, paciência, autoridade e limites claros. A educação para a vida não pode produzir crianças que nunca possam ouvir um “não”. Mas também não pode formar crianças que tenham medo de expressar aquilo que sentem. Esse é o caminho do meio entre a permissividade e o autoritarismo.
Mas a falta de controle emocional não é uma característica apenas das crianças. Nós, adultos, também perdemos o controle. Há adultos que, quando ficam com raiva ou são contrariados, explodem; que transformam frustração em agressividade; que dizem palavras das quais se arrependem; que tomam decisões no calor da emoção e permitem que seus sentimentos determinem seus comportamentos.
A educação cristã pode exercer um papel importante nesse processo. Os personagens bíblicos aprenderam — muitas vezes no meio de suas próprias crises — a colocá-las diante de Deus. Davi sentiu medo, angústia e tristeza. Elias experimentou profunda exaustão. O próprio Jesus chorou. Sentir faz parte da condição humana. Aprender a lidar com aquilo que sentimos faz parte da maturidade.
O domínio próprio é apresentado na Bíblia como um dos “gomos” do fruto do Espírito, em Gálatas 5:22-23. Domínio próprio não significa ausência de emoções, mas a capacidade de não sermos governados por tudo aquilo que sentimos. A fé não elimina nossas emoções; ela nos ajuda a encontrar direção para elas.
A história do avião que não decolou do aeroporto canadense tem muito a nos ensinar. Ela nos lembra que educar não é eliminar as emoções, mas aprender a lidar com elas — e ensinar nossos filhos a fazer o mesmo.
Talvez seja assim que nós e nossos filhos possamos crescer emocionalmente: aprendendo a atravessar as turbulências da vida sem perder o controle e a direção.
Apertem os cintos. O voo da vida continua!
(*) Pastor da Primeira Igreja Batista de Governador Valadares, psicólogo e presidente da Junta de Educação do Colégio Batista.
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