Há um boom na atualidade do Transtorno de Personalidade Borderline?

Venho observando um crescimento considerável de possíveis casos de TPB (Transtorno de Personalidade Borderline) em nossa sociedade. Falo de possíveis por se tratar de hipótese diagnóstica. Em vários lugares que frequento, articulando com profissionais de diversas áreas que vão da educação à saúde, ouço comentários sobre o jeito de ser de uns e outros, do tipo: fulano é muito instável, ele é depressivo? Bipolar? Tem transtorno opositor? Ou é “border”?

Inicialmente, precisamos compreender o que é TPB (Transtorno de Personalidade de Borderline), também chamado de transtorno de personalidade limítrofe, para saber diferenciar de outros transtornos e, então, compreender essa possibilidade de “epidemia”.

O Transtorno de Personalidade Borderline é um transtorno psiquiátrico, consequência de transtorno psicológico (ou vice-versa), ou seja, uma forte integração das questões psíquicas neurobiológicas com questões da subjetividade do indivíduo, envolvendo suas relações sociais. Tem como característica a oscilação das emoções, com marcas intensas de agressividade, impulsividade e irritação a respostas negativas (por isso pode ser confundido com transtorno opositor, que podemos abordar em outro momento). Como muda de humor de maneira súbita, saindo da euforia para a tristeza num curto espaço de tempo, muitas vezes, é confundido com transtorno bipolar. A bipolaridade é muito diferente desses casos. Inicialmente, a bipolaridade é um transtorno de humor, e o de borderline é um transtorno de personalidade. O intervalo da manutenção do humor do bipolar normalmente é bem maior do que do “border”. O bipolar pode mudar de humor em curto espaço de tempo, como dois dias, ou em longos, como de um mês para o outro, enquanto o “border” pode mudar o humor várias vezes durante o dia, ou seja, o intervalo é muito menor que do bipolar.

A excentricidade e impulsividade são marcas comuns nesse transtorno, por isso as pessoas apresentam comportamentos muito exagerados, como gasto excessivo de dinheiro, uso de drogas, bebidas alcoólicas ou compulsão alimentar. Um medo muito comum entre essas pessoas é o de abandono ou desamparo, por isso muitas vezes se subjugam em relacionamentos de amizades ou amorosos altamente coléricos.

Não podemos deixar de falar que a família da pessoa com TPB sofre muito por não saber como lidar com essa pessoa. Até ela chegar ao consultório do psicólogo ou do médico é um desafio enorme. Muitos desgastes já aconteceram neste ínterim, pois o indivíduo testa e desgasta muito a energia e a estrutura da família, e muitas vezes é visto como coitado ou rebelde, estereótipos estes que não contribuem em nada com o tratamento adequado a esses pacientes.

Fechar o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline não é nada fácil, simplesmente porque, conforme abordamos, sua sintomatologia é altamente parecida com outros transtornos. De certo modo, os profissionais da área da saúde têm medo do fechamento deste diagnóstico antes dos 18 anos, já que neste período se trata da fase da adolescência (que também apresenta sintomas comuns ao do borderline) e a estrutura psíquica do indivíduo antes dos 18 ainda está em desenvolvimento, podendo ainda acontecer consideráveis mudanças.

O tratamento é feito com ação medicamentosa com psiquiatra, para controlar a impulsividade, a raiva e a agressividade, e com o psicólogo, que desenvolve intervenções comportamentais para criar maturidade emocional e aprender lidar com suas crises, frustrações e sentimentos.

E a pergunta que não quer calar é: Está havendo um aumento considerável deste transtorno na atualidade? Pesquisei muito esse dado para poder responder com muito cuidado. Pesquisas apontam que 06% da população mundial sofre deste transtorno, cuja origem é de uma interação de causas genéticas com questões ambientais de origem. Algumas literaturas apontam uma forte influência da interpretação que este indivíduo aprendeu a ter do mundo a partir da sua interação com o mesmo através dos processos educacionais recebidos pela relação parental, ou seja, o medo do abandono na fase adulta pode ter sido influenciado fortemente por um abandono afetivo na fase infantil. Ao mesmo tempo, o sujeito é excêntrico e impulsivo, quer tudo na hora que bem desejar, e isso denota uma falta de dedicação de tempo no ensino da forma como lidar com os limites. Dessa forma, a ausência afetiva, o excesso de rigidez e a falta de limites eram recompensados por presentes, para suprimir uma possível culpa parental. Não podemos deixar de falar que isso é uma interpretação consciente ou inconsciente que o indivíduo aprendeu a fazer do mundo externo.

Aprender a dar afetos e limites é um grande desafio para nós, pais na atualidade. Trabalhamos muito e precisamos disso para prover nossas casas; isso é legítimo. Um hábito que precisamos aprender é sempre mostrar aos nossos filhos, de modo educativo, qual é a função e a necessidade do trabalho para nossas vidas e famílias. Isso é muito saudável. Aliado a isso, em nossos momentos precisamos aprender a dar afeto sem comprar presentes de compensação de culpa ou simplesmente porque não tivemos determinada oportunidade no passado e passamos a dar à revelia. Um exemplo positivo é brincar com os filhos e ensiná-los conceitos morais através de brincadeiras. Não é papel só da escola a ludicidade para aprendizagem; pelo contrário, trazer contextos morais (sem chatice) através da família enquanto brincamos é maravilhoso para o aprendizado.

Como estamos num mundo frenético de estudos (graduação, pós, MBA, mestrado e doutorado), a ascensão profissional tornou-se um grande desejo social (a intenção não é anular este desejo; ele é necessário para a manutenção de nossas vidas). Contudo, devemos tomar cuidado para não supervalorizar uma área e nos ausentar em outras, como a família, e tentar compensar de modo desregulado. O resultado pode não ser nada legal.

Espero que a leitura deste artigo tenha lhe ajudado. Aproveite e mostre a um amigo que necessita de uma leitura mais apropriada ao problema que esteja passando. Caso queira contribuir com críticas ou sugestões a esta coluna de comportamento escrita por Leonardo Sandro Vieira é só entrar em contato pelo 33-98818-6858 ou 3203-8784 ou pelo e-mail: leosavieira@gmail.com.