A caderneta de saúde do adolescente Coluna Adolescer Bem

Caro leitor, iniciamos o ano comemorando a criação da Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, que foi incluída no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) em janeiro deste ano. Mas, algum tempo depois, nos deparamos com a polêmica sobre a validade da caderneta de saúde dos adolescentes. Segundo a polêmica, a caderneta, distribuída pelo Ministério da Saúde desde 2007, teria um conteúdo inadequado para os adolescentes. Havendo mesmo uma recomendação governamental para pais retirarem e rasgarem as páginas que eles achassem inadequadas para seus filhos e o compromisso de reeditar a caderneta. Essa recomendação aconteceu porque nas cadernetas há um capítulo sobre anticoncepção e, neste capítulo, ilustrações ensinando os jovens a utilizarem camisinha. Em outro capítulo há ilustrações sobre o desenvolvimento sexual dos adolescentes. Trata-se da tabela de Turnner, onde o médico compara o desenvolvimento de mamas, vulvas e pênis, para avaliar se a puberdade está adequada, adiantada ou atrasada, dado fundamental para a abordagem médica do adolescente.

Ai, ai, caro leitor! Que tempos estamos vivendo? Muito moralismo usado para agradar os eleitores, mas pouca disseminação de informação científica. Essa equação só tem um resultado: não tem como dar certo! Não se pode misturar conceitos morais e ciência. A caderneta de saúde do adolescente é um grande acerto do Ministério da Saúde, respaldado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, com assessoria do Departamento de Adolescência daquela sociedade. A caderneta segue orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Só pra você ter noção, caro leitor, em janeiro foi anunciado que houve um aumento de setecentos por cento nos casos de contaminação por AIDS entre nossos jovens de até 19 anos (isso foi motivo de uma coluna em janeiro).

Nossos índices de gravidez na adolescência estão altos, até quando comparados aos países mais pobres da América Latina. Vejam: em 2014 nasceram 28.244 filhos de meninas entre 10 e 14 anos e 534.364 filhos de meninas entre 15 e 19 anos. Em 2015, 18% dos partos do SUS foram em adolescentes.

Vivemos nos últimos anos uma gravíssima epidemia de sífilis, infecção sexualmente transmissível, que, ao atingir a grávida, também atinge o feto. Grande parte das vítimas está em gestantes abaixo de 20 anos e seus rebentos.

Somente esses dados já nos dão a noção de que a situação que nós, médicos de adolescentes, enfrentamos é muito grave. E que encarar essa triste realidade com moralismo e um discurso eleitoreiro vai nos trazer um aumento nas taxas de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e de gravidez na adolescência. Preocupada com isso, a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) emitiu uma nota, reafirmando a importância da Caderneta de Saúde do Adolescente. Nela, a entidade reforça a importância de disseminar informações para nossos jovens, modo de prevenção consagrado (o direito à informação), e se compromete a continuar ajudando o Ministério da Saúde a divulgar a caderneta.

Nossa coluna se coloca ao lado da SBP e roga aos céus um pouco de lucidez (coisa rara nos dias de hoje…).

Autor: Darlan Corrêa Dias | Essa coluna é quinzenal. Se quiser sugerir assuntos ou tirar dúvidas, utilize o e-mail adolescenteconfidente@gmail.com.

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