Da Infância ao “Mini Louvre”: Uma Vida em Coleção

FOTO: Freepik

Entre a magia das primeiras figurinhas e o álbum mais caro da história: o colecionismo resiste ao tempo — e ao bolso

Há menos de dois meses para o maior evento do planeta, os apaixonados por futebol e colecionismo já entram em estado de alerta: vem aí o maior álbum de figurinhas da história. Tudo porque a FIFA — entidade máxima do futebol mundial — resolveu “inchar” o torneio, colocando nada menos que 48 seleções.

Se, por um lado, o nível técnico do Mundial levanta discussões, por outro, o tradicional álbum da empresa italiana Panini cresce junto: agora são impressionantes 980 figurinhas. Um desafio… e tanto. Mas, convenhamos: álbum da Copa é álbum da Copa. Não tem como ficar de fora.

E foi justamente pensando nisso que me peguei mergulhando em lembranças antigas. Minha esposa costuma dizer que sou acumulador. Eu prefiro um termo mais elegante: guardião de memórias. Porque, no fundo, colecionar é isso — preservar pequenos pedaços de tempo que, de outra forma, se perderiam.

Tudo começou lá pelos meus seis ou sete anos. Lembro perfeitamente de ter enviado uma carta para a antiga fábrica Ping Pong, acompanhada de alguns envelopes do famoso chiclete. Dias depois, recebi em casa um Superman de borracha. Minha primeira miniatura. E, claro, ele virou meu companheiro inseparável.

Na mesma época, enquanto, nos Estados Unidos, surgia o fenômeno Star Wars, eu passava horas pelas ruas dos bairros Nossa Senhora das Graças e Grã-Duquesa, em busca de palitos de picolé da Kibon. Eram eles que garantiam o acesso ao álbum e às figurinhas. Era quase uma caça ao tesouro — com direito a recompensa.

Também me recordo de andar pelos meios-fios, atento a qualquer figurinha perdida. E às tampinhas de refrigerante, que vinham com adesivos de personagens da Disney — algumas com impressão direta na própria tampa. Havia até prêmios. Era uma febre.

No final dos anos 70, outra paixão surgiu: os “Futebol Cards”. Dentro dos chicletes Ping Pong vinham três cards com jogadores dos principais clubes do país. E ali estavam times como Caldense, Londrina e o saudoso Colorado — dono, na minha opinião, do uniforme mais bonito de todos. Logo depois vieram os “Grandes Jogos”, uma verdadeira enciclopédia esportiva para uma geração que não fazia ideia do que era internet.

Os anos 80 chegaram… e, com eles, o primeiro grande amor: o álbum da Copa do Mundo.

A Copa de 1982 foi inesquecível. A seleção era favorita, o país respirava futebol… e os dentistas, coitados, entraram em desespero com o consumo de chicletes. Minha mãe, professora, chegava em casa com os bolsos cheios de figurinhas que ganhava de seus alunos. Era uma festa.

Foi também nessa época que aprendi o lendário jogo do bafo. Nada a ver com hálito — tratava-se de habilidade, estratégia e um toque de sorte. As figurinhas empilhadas, a mão em concha… e aquela batida precisa que definia quem levava o prêmio. Era competição pura, mas com aquele espírito leve de infância.

A febre do futebol de botão

Se existiu uma paixão que ganhou status de obsessão, ela atende pelo nome de futebol de botão.

Já morando no centro da cidade, comecei a montar meus primeiros times e seleções. E aqui havia regra — e disciplina. Nada vinha fácil. Era preciso garimpar tampinhas de Guaraná Antártica para conseguir montar um elenco.

A conta era simples e quase matemática: três tampinhas valiam um jogador de linha; cinco tampinhas garantiam o goleiro.

E assim, peça por peça, time por time, eu construía verdadeiras seleções. Cada botão tinha valor. Cada partida era levada a sério. E cada conquista… comemorada como se fosse final de Copa do Mundo.

Com a ajuda da minha prima Rejane, que passou uma temporada lá em casa naquele inesquecível 1982, a coleção cresceu — e, junto com ela, a paixão pelo jogo.

Enquanto o botonismo dominava minhas tardes, outros álbuns surgiam com a chancela da Antárctica, Ping Pong e Editora Abril. Fui completando vários: O Mundo Maravilhoso da Aviação (que rendia até camiseta), Pica-Pau, Turma da Mônica, Fórmula 1 — com um tal de Ayrton Senna despontando —, entre tantos outros.

Na casa dos meus avós, em Limeira de Mantena, ganhei cerca de 50 selos do meu tio Eudes. E ali nasceu mais um capítulo: tornei-me filatelista. Uma coleção rica, diversa, construída ao longo de anos, que hoje guardo com carinho na memória.

Até que a vida adulta chegou.

Trabalho, faculdade, mudanças… e, em meio a tudo isso, uma perda difícil: meu pai, sem imaginar o valor afetivo daquele acervo, acabou doando grande parte da coleção. Não eram apenas objetos. Eram fragmentos inteiros da minha história.

Mas o tempo também tem suas formas de devolver o que parecia perdido.

Hoje sigo colecionando — talvez com itens mais sofisticados: LPs, CDs e DVDs (quase 2.000 unidades), camisas de futebol (mais de 100), miniaturas, perfumes, cartões telefônicos, selos, cédulas, canetas… e por aí vai.

E já tenho um novo projeto em mente: transformar um espaço da casa em um verdadeiro “mini Louvre”, com réplicas de obras de grandes mestres. E não apenas os clássicos mais conhecidos — a ideia é ampliar esse universo, incluindo nomes como Van Gogh, Portinari, Da Vinci, Picasso, Edvard Munch, Tarsila do Amaral… e tantos outros que ajudaram a contar a história da arte ao longo dos séculos.

Enquanto isso, sigo guardando a sete chaves meus álbuns mais recentes: Copas do Mundo, Campeonatos Brasileiros, Olimpíadas… adquiridos nas cada vez mais raras bancas de jornal — verdadeiros templos da nostalgia.

A vida segue. E, com ela, a emoção de cada novo item… e a saudade gostosa de tudo aquilo que ficou.

E, com a Copa de 2026 logo ali no horizonte, já sei exatamente o que me espera: figurinhas repetidas, negociações intensas, aquela esperança quase teimosa de completar o álbum… e um investimento que facilmente passa da casa dos mil reais.

Mas quer saber?

Algumas coleções não cabem em prateleiras, caixas ou álbuns. Elas ficam guardadas em um lugar bem mais difícil de organizar… e infinitamente mais fácil de revisitar.

Na memória.


(*) EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou no Diário do Rio Doce, Rádio Globo/CBN, Rede Novo Tempo de Comunicação, foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FAGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.

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