Foram-se os pardais e os pedidos de perdão

FOTO: Freepik

Era uma segunda-feira na primeira quinzena de março. Portanto, estamos falando de um verão acachapante em uma Valadares que não alivia nem um pouco na referida estação. Cheguei para trabalhar no início da tarde. Estacionei o carro à sombra de uma bela árvore — o que garante que os componentes do veículo não se derretam ao longo do dia. Ainda dentro do meu automóvel, fiquei imóvel após reparar que ao lado havia muitos canarinhos brincando em uma poça d’água. A coreografia da natureza entre o bater das asas e o mergulho próspero foi o cartão postal da minha semana.

Estava lindo, porém, tive que sair voando do carro — que estava desligado há alguns segundos e já havia atingido uma temperatura proibitiva —, mas houve tempo para registrar em vídeo a dança daquelas aves. Pensei que faria todo sentido postar o conteúdo nos meus stories para que outras almas tivessem acesso ao balé balsâmico do estacionamento. Como trilha sonora de um momento sublime, pousou em minha mente um fragmento de “Preta Pretinha”, clássico absoluto da nossa música, composta pelas penas de Luiz Galvão e Moraes Moreira e integrante de “Acabou Chorare”, álbum lendário dos Novos Baianos, lançado em 1972. “Eu sou um pássaro/ Que vivo avoando/ Vivo avoando/ Sem nunca mais parar/ Ai, ai, ai, ai/ Saudade…”, foi este o trecho que eu postei.

Muita gente sabe — mas muita gente não — que eu trabalho em uma universidade às margens do famoso — e castigado — Rio Doce. Daí tantos bichos e cenas legais. E eis que nossa pró-reitora acadêmica, a professora Adriana Coelho, que também ama a natureza e o campus, curtiu minha postagem e trouxe uma informação que me deixou de bico… digo, de boca aberta. “Canarinhos estão tomando o lugar dos pardais”. Quê? Como assim? Ela, engenheira civil, mestra e doutora, explicou que as mudanças nos estilos de construções nas cidades prejudicaram os pardais, que não se adaptaram aos formatos das novas edificações e viram minguar os espaços para construírem seus ninhos. “E ainda tem muita gente que não acredita na nossa interferência no meio ambiente”, prosseguiu Adriana. Eu acredito, professora. E agradeço muito pela informação.

Quer dizer então que as residências, além de terem ficado todas iguais, ainda por cima — literalmente, porque os telhados ficaram mais fechados — estão extinguindo os pardais? Uma padronização insossa e nociva. Os canarinhos estão se virando bem. A ironia, sempre ela, é que a nossa seleção canarinha, tão famosa pelo talento e pelo improviso em campo, vem há tempos sendo criticada por oferecer ao público um futebol pragmático, sem ginga, sem tempero, sem um telhado que permita a criação e a procriação de algo genuíno. É como se as partidas fossem tão monótonas quanto ver as casas dos bairros novos da minha cidade.

Algo parecido acontece com as roupas vendidas pelas gigantes do chamado fast fashion. Elas estão em todas as cidades médias e grandes do país e na internet, claro. Experimente comprar uma roupa em uma delas e você encontrará muita gente com um modelo igualzinho ao seu. Dia desses, uma grande marca de moda anunciou que retiraria de suas inúmeras lojas um modelo específico de camisa. A peça, básica, traz os dizeres “Regret Nothing” e, à primeira vista, isso não representa nenhum problema — no Brasil, a gente ama produtos com algo ou tudo em inglês. Só que um dos homens acusados no caso de um estupro coletivo de uma adolescente no Rio resolveu se apresentar na delegacia usando a referida peça. Sim, ele foi se defender de uma acusação trajando uma camisa com um escrito cuja tradução livre pode sugerir algo como: “não se arrependa de nada”. A frase também é atribuída a grupos misóginos que atuam nas redes sociais.

A loja fez o que manda o protocolo de gestão de marca: recolheu as peças como ato de repúdio e para se preservar. As entidades às quais os suspeitos do crime são/eram ligados — escolas, clubes esportivos etc. — também se movimentaram para se desvencilhar desses perfis de gente. Mas o país não consegue dar jeito no descalabro de forma estratégica. Em casos assim, reagir e fazer justiça é muito pouco. A tragédia consumada contra mulheres mata e fere muito. E, aparentemente, não tem gerado nem sequer os arrependimentos de araque de outrora, em flagrante recrudescimento do ódio anabolizado por algoritmos e remediado por instituições lentas.

Portanto, de modo geral, o que temos para hoje? Uma arquitetura que espanta criatividade e pardais. Uma estrutura ressentida e criminosa que nem mesmo ensaia pedidos de perdão. Marcas constantemente desesperadas para salvar seus ativos. Mulheres violentadas e mulheres morrendo. Este é o padrão de uma sociedade destrambelhada que, dia a dia, flerta com a delinquência. Professora Adriana, são imensos os desafios da educação — mas disso você já sabia.


(*) Jornalista e publicitário.

Professor na Univale e poeta sempre que possível.

Instagram: @bob.villela

Medium: bob-villela.medium.com

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