“Já não vos chamo servos, mas amigos” — (Evangelho de João 15:15)
Recebi recentemente um livro com a dedicatória “ao muito estimado irmão, amigo e colega de ministério”. Uma palavra simples — amigo — reacendeu uma reflexão: será que ainda entendemos o que é amizade em meio a tantos vínculos frágeis?
Hoje acumulamos centenas, às vezes milhares, de “amigos” nas redes sociais. Acompanhamos fotos, opiniões e aniversários, mas terminamos a navegação mais vazios do que começamos. A convivência real deu espaço a conexões rápidas, efêmeras, quase sempre superficiais.
O sociólogo Zygmunt Bauman chamou esse fenômeno de “relacionamentos líquidos” — vínculos que escorrem pelos dedos, incapazes de sustentar peso emocional. Nas amizades on-line, compartilhamos o que queremos mostrar, não necessariamente o que vivemos. É uma liberdade sedutora: escolhemos e descartamos pessoas com um clique, sem o risco do confronto, sem a exigência da presença.
O problema é que, diante da dor, da doença ou da solidão, percebemos que essa multidão digital raramente se traduz em apoio concreto. Entre milhares de contatos, poucos são os que realmente caminham conosco.
A amizade verdadeira exige algo que a tecnologia não entrega: presença, escuta, parceria, cumplicidade. Ela nasce da vida compartilhada e cresce no toque, no olhar, no abraço. Redes sociais podem aproximar, combinar encontros, manter o contato — mas não substituem o encontro real. São meio, não fim.
Amizade é planta sensível. Precisa de cultivo, cuidado, tempo e entrega. Não vive apenas de curtidas, mas de gente que aparece, que abraça, que fica. Em tempos líquidos, talvez o grande desafio seja redescobrir a beleza dos relacionamentos sólidos.
E, para quem tem fé, essa busca encontra seu maior exemplo em Jesus — aquele que chamou os discípulos de amigos, esteve presente em suas dores e alegrias e demonstrou, com a própria vida, o que significa amar até o fim.
Ele nos lembra que amizade verdadeira é compromisso, presença e entrega. E que, mesmo em meio à superficialidade do nosso tempo, ainda é possível viver vínculos que sustentam, fortalecem e transformam.
(*) Pastor da Primeira Igreja Batista de Governador Valadares e presidente da Junta de Educação do Colégio Batista
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