O caso do financista norte-americano Jeffrey Epstein escancarou uma ferida profunda nas democracias contemporâneas: a forma como poder, dinheiro e prestígio social podem ser usados para proteger crimes sexuais, inclusive contra crianças e adolescentes. Mais do que a história de um único homem, o escândalo revelou um sistema de conivências, silêncios e omissões que permitiu que abusos se repetissem por anos sem punição efetiva.
Epstein, que foi encontrado morto em sua cela, em 2019, manteve uma rede de exploração sexual ativa durante décadas, beneficiando-se de acordos judiciais brandos e de uma impressionante capacidade de circular entre as elites políticas e econômicas globais. Documentos tornados públicos ao longo das investigações, depoimentos de vítimas e registros analisados por autoridades federais dos Estados Unidos, incluindo o FBI, apontaram vínculos, encontros e relações próximas entre Epstein e figuras extremamente influentes do cenário mundial.
Entre os nomes citados em investigações, registros de voos, agendas e testemunhos estão personalidades como o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, o atual, Donald Trump, o diretor-executivo da Microsoft Bill Gates, Elon Musk, da Tesla, entre outros empresários, políticos e membros da elite internacional. É fundamental frisar: essas citações não significam, automaticamente, acusação ou condenação criminal. No entanto, levantam questionamentos legítimos sobre o grau de conhecimento, tolerância ou omissão diante dos crimes cometidos.
O problema central não está apenas em quem foi ou não responsabilizado judicialmente, mas no padrão que se repete: homens poderosos frequentando os mesmos círculos, usufruindo do mesmo acesso privilegiado e, muitas vezes, protegidos por uma cultura que evita confrontar “nomes grandes”. Quando as autoridades falham em investigar a fundo essas relações, a sensação de impunidade se fortalece — e as vítimas, mais uma vez, ficam à margem.
Esse modelo não é exclusivo dos Estados Unidos. No Brasil, nesta semana, a prisão de um piloto de avião acusado de chefiar uma rede de pedofilia revelou como posições de prestígio e confiança também são utilizadas como ferramenta para aliciamento, ocultação e continuidade dos crimes. A lógica é a mesma: status social como disfarce, poder como proteção e vítimas reduzidas ao silêncio, comercializadas como objetos.
Casos assim demonstram que a pedofilia e o abuso sexual não sobrevivem sozinhos. Eles prosperam em ambientes onde há complacência institucional, medo de enfrentar figuras influentes e uma justiça que, por vezes, parece funcionar de forma seletiva. Ainda mais quando ministros, como ocorreu esta semana no Brasil, são afastados por suspeita de assédio sexual. Não se trata apenas de criminosos individuais, mas de sistemas que falham em proteger quem mais precisa.
Criticar o uso do poder para abuso sexual não é sensacionalismo — é dever social. Significa exigir investigações profundas, transparência, responsabilização de cúmplices e o fim da ideia de que riqueza, fama ou influência podem servir como escudo moral ou jurídico.
Enquanto nomes poderosos continuarem intocáveis e perguntas permanecerem sem resposta, o legado do caso Epstein seguirá vivo como símbolo de uma verdade incômoda: quando o poder não encontra limites, ele deixa de ser influência e passa a ser cumplicidade.
(*) Jornalista
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