O filme “O Agente Secreto” é a bola da vez, com todos os méritos. Mais uma obra-prima do pernambucano Kleber Mendonça Filho — tudo que eu conheço dele é excelente. No Globo de Ouro, dois prêmios. No Oscar, quatro indicações! Outras inúmeras indicações e premiações nos principais eventos mundo afora. A gata vira-lata Carminha, que atua no filme, foi premiada. Kleber Mendonça e Wagner Moura já viraram bonecos gigantes em Olinda.
“O Agente Secreto” se passa na década de 1970, quando não havia smartphones e, muito menos, WhatsApp — tempo bom, né? Um dos elementos cenográficos que se destacam no filme é o clássico orelhão, aquela cabine telefônica genuinamente brasileira que era onipresente antes da popularização dos celulares. Desenvolvido pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, o orelhão é um dos maiores ícones do design nacional — talvez só perca para as majestosas Havaianas e para o adorável filtro de barro. O orelhão está em peças de divulgação do filme e já foi objeto de vários memes — outra mania nacional.
Pois o orelhão está morrendo. O Brasil, realmente, é um país de coincidências vertiginosas. A certa altura, ninguém mais ligava para o orelhão. De repente, um filme nordestino ganha o mundo, enche o país de orgulho e restabelece os vínculos afetivos do público com aquela formidável cabine telefônica. No meio dessa efervescência, a Anatel, agência que regula as telecomunicações no Brasil, começou a retirar os orelhões do país, uma vez que com o fim da concessão de telefonia fixa as operadoras estão desobrigadas de fazer a manutenção dos equipamentos.
Em 1979, a Telesp, então a companhia telefônica do estado de São Paulo, lançou um comercial que rapidamente tornou-se um dos mais ilustres da ilustríssima publicidade brasileira. Na peça criada pela imensa agência DPZ — até hoje uma das maiores do país —, um orelhão está agonizando no passeio público diante de transeuntes perplexos. O equipamento, ali, foi humanizado para sensibilizar os usuários quanto ao vandalismo. O vídeo está disponível no YouTube.
Em 2026, quem morreu foi o Orelha, um cão comunitário que vivia na deslumbrante Florianópolis e cujo destino mobilizou o país. Definitivamente, não cabe a nós investigar, julgar ou condenar os responsáveis, já que há autoridades competentes para tal. Fato é que alguém agrediu aquele animal. E agora ele está morto. O Orelha, ali, foi cruelmente violentado por gente que perdeu a sensibilidade e o respeito pela vida.
Em uma sociedade cada dia mais fascinada por coisas, na qual possuir e exibir coisas e “momentos” é o que nos define, muitos padrões ficam desvirtuados. Assim, algumas pessoas acreditam que possuir coisas e pertencer a “grupos’ são credenciais para tratar outras vidas também como coisas. É uma distorção de valores e um desprezo pela alteridade que, evidentemente, não nasceu agora. O que choca é ver nossa fé ingênua no avanço da humanidade definhando uma vez mais, tal qual o orelhão do comercial da Telesp.
Os orelhões e, especialmente, o Orelha mereciam destinos muito mais dignos. As cabines de formato único ainda podem ser recicladas e ganhar novas funções ou apelos estéticos que conciliem a preservação da história e a celebração do nosso design, fomentando a autoestima e o apreço de habitantes e visitantes. Londres faz isso de forma excepcional com seus ícones. Por aqui, a ficha ainda vai cair. Somos muito criativos e haveremos de encontrar saídas que liguem muitos pontos.
Orelha, o cão comunitário, não voltará. Mas ele pode inaugurar novos tempos e limites para uma sociedade que abriu mão de formar cidadãos e simplesmente adestra consumidores obcecados por lucrar, acumular, subjugar, postar. De preferência, rápido. De preferência, sempre. Um dos álbuns mais sagazes e críticos do Zeca Baleiro chama-se “Pet Shop Mundo Cão”, lançado em 2002 e cuja relevância não se perderá tão cedo. Bem antes de Zeca, Cazuza lançava a tensa “A Orelha de Eurídice”, que traz o seguinte trecho:
“No asfalto quente do aeroporto, como uma miragem
É a alma quem castiga o corpo, esta é a mensagem
Na paisagem distorcida pelos aviões que sobem”
No final de janeiro, o Aeroporto Internacional de Florianópolis recebeu dois dos quatro adolescentes suspeitos de espancar Orelha. Eles estavam passeando na Disney, a terra do Pluto. Este, um cão simpático consagrado pela fantasia e pela exclusividade instagramável na paisagem distorcida dos nossos anseios. Enfim, e reitere-se, tem muita gente valorizando mais as miragens do que as mensagens que nos convidam a caminhar no asfalto quente da cidadania.
(*) Jornalista e publicitário | Professor na Univale e poeta sempre que possível | Instagram: @bob.villela | Medium: bob-villela.medium.com
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