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Carnaval acaba, o lixo fica: quem paga essa conta dentro dos condomínios?

FOTO: Divulgação

No Carnaval, o excesso de lixo não se limita às vias públicas. Mesmo os condomínios que não estão na rota de blocos ou em cidades onde a folia é intensa sentem os efeitos. Latas, garrafas, embalagens plásticas e copos descartáveis se acumulam nas áreas comuns, as lixeiras transbordam e a rotina de descarte é desafiada de maneiras que só aparecem, de fato, depois da euforia. Essa é uma realidade concreta para muitos síndicos e moradores que, no outro dia, veem o patrimônio coletivo transformado em depósito temporário de resíduos.

Causas além do Carnaval
Importante destacar que o Carnaval potencializa um fenômeno que já existe na vida cotidiana: o aumento da geração de lixo quando ficamos mais tempo em casa, pedimos comida por aplicativo, usamos embalagens descartáveis e consumimos mais produtos prontos. Pesquisas demonstram que cada brasileiro produz, em média, cerca de 1,04 kg de resíduos sólidos urbanos por dia — um volume que, quando multiplicado pelos moradores de uma unidade ou de um condomínio inteiro, se torna expressivo mesmo sem festa na rua.

Esse dado considera o lixo produzido no dia a dia, composto por restos de comida, embalagens, papéis, plásticos e outros itens que, em períodos de maior permanência doméstica — como durante o Carnaval, feriados, pontes ou fins de semana prolongados — tende a aumentar de forma natural. Quando se somam a isso os pedidos por delivery de comida ou bebidas, o número de embalagens descartáveis cresce ainda mais, pressionando a capacidade das lixeiras e dos sistemas de coleta internos.

O impacto agregado é pesado
Somando produção doméstica e eventos sazonais, estima-se que o Brasil gere diariamente algo próximo de uma tonelada de resíduos por pessoa — o equivalente a quase 380 kg por habitante ao ano, segundo dados nacionais sobre resíduos sólidos. Essa dose diária de lixo já é considerável por si só. No Carnaval, ela é amplificada, porque hábitos de consumo mudam, as pessoas ficam mais tempo em casa e todos esses resíduos acabam misturados aos resíduos extraordinários gerados pela festa.

Responsabilidade dentro e fora do condomínio
No condomínio, as regras de convivência e de gestão de resíduos não podem ser negligenciadas. Assim como a prefeitura é responsável pela coleta do lixo deixado nas ruas, dentro do condomínio cada morador é responsável pelo lixo que produz e pelo seu descarte correto. Ignorar essa responsabilidade significa transferir o problema para funcionários, síndicos, equipe de limpeza e, no fim, para o bolso de todos, por meio de custos extras na taxa condominial.

E o problema não é apenas visual: lixo mal gerido pode atrair pragas urbanas, gerar mau cheiro, entupir sistemas de drenagem e criar riscos sanitários que vão além da data festiva.

Educação ambiental como parte da gestão condominial
Lidar com lixo de forma inteligente exige mais do que braços para coletar: exige educação ambiental, comunicação clara, regras de descarte e incentivo à separação responsável dos resíduos. Faz parte da convivência em sociedade — e em condomínio — compreender que a geração de resíduos é uma realidade, mas que seu manejo correto pode reduzir custos, riscos e impactos ambientais.

Debate ampliado no Morar360º
Esses temas — lixo em condomínios, responsabilidade ambiental e o papel de cada um na solução — foram aprofundados no novo episódio do Podcast Morar360º, disponível no YouTube, em conversa com Guilherme Castro, especialista em Direito Ambiental e secretário municipal de Meio Ambiente da Prefeitura de Governador Valadares. A discussão reafirma que a gestão do lixo não é apenas logística: é educação, cidadania e responsabilidade coletiva.

Depois da festa, fica a escolha
O Carnaval passa — o lixo, não. A pergunta que permanece é: quem assume? Se deixarmos a conta apenas para os síndicos, para funcionários ou para o orçamento coletivo do condomínio, estaremos terceirizando um problema que nasce de escolhas individuais. Viver em condomínio também é compreender que o direito de festejar termina onde começa o dever de cuidar do espaço comum. Porque a festa é temporária — a responsabilidade, não.


(*) Cleuzany Lott é advogada, com especialização em Direito Condominial, MBA em Administração de Condomínios e Síndica Profissional (Conasi). É presidente da Comissão de Direito Condominial da 43ª Subseção da OAB-MG, em Governador Valadares, e 3ª vice-presidente da Comissão de Direito Condominial de Minas Gerais. Coautora do livro Experiências Práticas em Conflitos Condominiais, atua também como síndica, jornalista e palestrante, com foco na gestão condominial responsável, prevenção de conflitos e comunicação jurídica acessível.

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