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O Brasil que Corre no 5G mas Anda na Idade da Água

FOTO: Freepik

Caros leitores, há uma contradição brutal correndo solta pelo Brasil. Falamos em inteligência artificial, em criptomoedas, em conectar tudo à internet das coisas. Nosso smartphone é 5G, mas o saneamento básico de milhões de brasileiros ainda é do século XIX. Essa não é uma crítica sobre atraso. É um grito de alerta sobre uma escolha de país. Enquanto corremos para o futuro digital, continuamos a pisar no esgoto do nosso passado negligenciado. A imagem é surpreendente: o entregador, com seu app de última geração no celular, desviando de valas abertas e esgoto a céu aberto para fazer a entrega. A influencer que faz live em ultra definição, mas não tem água potável saindo da torneira de casa. São duas realidades paralelas que não deveriam coexistir. Mas coexistem. E falam mais sobre nossas prioridades do que qualquer discurso político. Isso não é apenas um problema de saúde pública ou de infraestrutura. É a materialização pura e cruel da desigualdade.

Acesso à tecnologia de ponta virou commodity. Acesso à água limpa e ao esgoto tratado, um privilégio. O que estamos dizendo como sociedade quando aceitamos que uma parcela da população tenha o futuro na palma da mão, mas não tenha garantias básicas de dignidade há séculos consagradas? A frustração é ver a discussão política presa em brigas ideológicas vazias, enquanto questões fundamentais viram pano de fundo. Saneamento não é pauta de esquerda ou de direita. É pauta humana. É sobre crianças não precisarem faltar à escola por doenças diarreicas. É sobre valorizar imóveis e gerar emprego. É sobre não morrer por uma água contaminada.

Há um movimento positivo com o Marco Legal do Saneamento, que trouxe metas ambiciosas. Mas metas não curam doentes hoje. Não secam a lama que invade as casas na próxima chuva. Precisamos de urgência e vergonha na cara. Urgência para destravar investimentos e burocracias. Vergonha de vivermos em um país que aspira a ser potência, mas que ainda convive calmamente com indicadores de nações falidas nessa área. O desafio é tornar o invisível, visível.

O esgoto está embaixo da terra, longe dos holofotes. Não gera like nem engajamento. Mas sua falta mata silenciosamente. Precisamos falar mais sobre tubos, água e esgoto do que sobre intrigas de Brasília. O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas em gigabits por segundo, mas em litros de água tratada e em quilômetros de rede coletora.


(*) Jornalista e escritor

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