O combo de nossas escolhas – parte 2

FOTO: Divulgação

Saber dizer adeus também é amar

Há alguns dias, minha mãe precisou tomar uma das decisões mais difíceis dos últimos anos. A mesma decisão que eu e minha família tivemos que tomar há cerca de três anos, naquele triste mês de junho de 2022.

No caso dela, a escolha recaía especificamente sobre uma cadelinha da raça pinscher, que já sobrevivia há alguns meses sem qualidade de vida. No nosso caso, um beagle — o nosso Snoopy — que nos deu tantas alegrias, mas agora era vítima de uma enfermidade praticamente incurável.

Em ambos os casos não vou entrar nos detalhes. Mas julgamos ter sido a escolha mais acertada: deixar que eles partissem. Porque a vida — seja ela de um ser humano ou de um animal de estimação — tem que ser vivida com qualidade. E, convenhamos, quando alguém que amamos morre, um pedaço de nós também é sepultado.

Sofremos mais do que aqueles que se vão, pois os mortos não têm consciência alguma. Descansam no pó da terra. E, a partir dessa realidade, muitas vezes lidamos com a dor da perda de forma quase abstrata.

Alguns encaram de frente. Outros optam por subterfúgios para minimizar o sofrimento. E é aí que eu me lembro dela: Preta Gil. Em meio ao sofrimento e à angústia de lidar com um câncer profundamente agressivo, Preta ouviu uma das mais belas e corajosas declarações de amor de um pai para a filha. À época, Gilberto Gil declarou algo como:

Filha, se estiver muito pesado para você, vai!

Era como se o patriarca estivesse dizendo: “Filha, eu não quero que você sofra. E, entenda, nós vamos sofrer muito mais com a sua ausência.” E, no final das contas, é isso. A gente sofre bem mais porque a morte é uma intrusa e quase sempre chega de surpresa.

Além disso, como eu costumo dizer, não adianta simplesmente passar pela vida. Precisamos vivê-la intensamente. O que nos leva de volta ao hedonismo.

É difícil, sim. Doloroso, inevitável, cruel. Mas também é humano. E, talvez, profundamente amoroso. Porque amar, às vezes, é deixar ir. É dizer “obrigado” entre lágrimas, e depois seguir com um pedacinho daquele amor dentro da gente.

E é aí que o prazer entra — como abrigo e anestesia. Não aquele prazer vazio, fugaz, mas o que nasce do reencontro com as pequenas alegrias: um chocolate quente, uma boa conversa, uma lembrança bonita.

Prazer que não nega a dor, mas suaviza seus contornos… e nos ajuda a continuar. Porque viver também é isso: equilibrar perdas e conquistas. E, no fim das contas, o que realmente fica não é a morte. É o amor vivido. E o gosto bom de ter amado de verdade.


(*) EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou no Diário do Rio Doce, Rádio Globo/CBN, Rede Novo Tempo de Comunicação e foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FAGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.

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