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O mundo, as marcas, a morte e a Dinamarca

FOTO: Divulgação

O número que muitos gostariam de conhecer (e muitos não), que suscita discussões filosóficas em ambientes acadêmicos e nas mesas de boteco, aquele número outrora mágico, que até outro dia era um mistério indecifrável… segue sendo um mistério. Mas calma. Que número é esse? Que diabos é esse mistério? Estamos falando do tempo que teremos de vida na terra. Se em “Canto para minha Morte”, uma espécie de tango esquisito e sensacional que abre o álbum “Há 10 Mil Anos Atrás” do não menos sensacional Raul Seixas, o mestre baiano tece indagações sobre como se dará a passagem dele e o encontro com a eternidade, tem gente empenhada em resolver a questão em um lugar onde o clima é bem diferente daquele da Bahia.

É que um grupo de pesquisadores da Dinamarca desenvolveu a “calculadora da morte”. Saiu no Tilt, do UOL, e não sai da minha cabeça. Trata-se de um algoritmo que pode prever as etapas de vidas humanas até o desfecho indesejado, com base, claro, nos dados aos quais teve acesso. Em alguns casos os resultados foram muito satisfatórios, com o modelo saindo-se melhor que outros pares. Neste momento, tudo isso é “apenas” um projeto de pesquisa que ainda não pode ser aplicado para o público. Mas não deixa de ser interessante e espantoso como a tecnologia tem conseguido ter mais sucesso a cada dia na missão de juntar peças aqui e ali para compreender ou definir nosso presente e nosso futuro. 

Os dinamarqueses, é bom lembrar, são ótimos em juntar peças. A Lego é de lá. E talvez ela seja a marca de brinquedos mais querida do planeta — alguns podem preferir a Playmobil, que é alemã. Até quem nunca brincou com Lego ama Lego. Eles estão em tudo. Publicidades memoráveis, versões para o cinema, a aura (não sem razão) da diversão pedagógica, do estímulo à imaginação, do desenvolvimento da autonomia. Tudo parece conspirar a favor de Lego. Muito mais que uma recreação pura e simples (o que já seria até legal), é como se estivéssemos diante de pedacinhos da Dinamarca capazes de construir o imaginário de gerações, com potencial (as pecinhas e as crianças) de montar instantes de qualidade como os que parecem viver esses habitantes da Escandinávia.

Sim, Lego é caro. Ora, mas ovos de Páscoa também são. E nem por isso você deixa de comprar. O principal lançamento da Garoto para esta temporada foi o ovo Caribe, que, assim como o bombom, mistura chocolate com banana. A receita que sempre dividiu opiniões mostrou-se um estrondoso sucesso no formato oval, a ponto de o produto estar esgotado nos principais varejistas e poder ser encontrado no Mercado Livre por quase R$ 400. A Garoto, fundada no Brasil por um imigrante alemão, hoje pertence à Nestlé, de origem suíça, que recentemente adquiriu outra marca tupiniquim de chocolates: a Kopenhagen, cujo nome remete ao glamour da capital da Dinamarca, mas na verdade refere-se ao sobrenome do casal fundador (Anna e David Kopenhagen), que veio da Letônia. 

No site da Kopenhagen os produtos estão mais em conta do que o ovo Caribe. De qualquer maneira, independentemente da marca, muitos brasileiros terão que parcelar o pagamento das delícias. Ou usar o FGTS, como sugeriu uma imagem que viralizou nas redes sociais. A foto foi feita na Americanas — que é de origem brasileira — e tem um papelzinho anexado a um ovo da Lacta (que nasceu no Brasil e hoje pertence à estadunidense Mondelēz) indicando que a gostosura pode ser adquirida com o fundo de garantia. A Americanas não fez nada de errado, que fique claro. O que gerou piadas foi o fato de o FGTS ser muito associado a financiamento de imóveis, e não necessariamente para se ter acesso a alguns pedaços de chocolate. Não é incomum, por sinal, vermos edifícios com nomes das principais cidades da Europa em nossas ruas! Não me lembro, entretanto, de algum residencial brasileiro de alto padrão chamado Garoto, ou Garota.

Fato é que enquanto lá em cima estão tentando calcular nosso tempo de vida, e os pesquisadores alertam para o que tudo isso implica (procure a matéria no Tilt), na parte de cá do ocidente a calculadora tenta fazer o chocolate caber no bolso. Cacau, em algumas regiões do Brasil (ou em todas, não sei), é uma gíria para dinheiro. “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, diz Hamlet, personagem que é o príncipe do país nórdico na obra do inglês William Shakespeare. Aqui, há de haver algo de barato porque todo o resto é muito caro. Deve ser por isso que Raulzito sugere alugar o Brasil para os gringos na sagaz canção “Aluga-se”. Não daria muito certo. Só a gente entende este imóvel de tantos imóveis, mas de um povo que luta e junta peças de Lego e de um teatro diário na esperança de renascer mais doce. Feliz Páscoa!


(*) Jornalista e publicitário | Coordenador dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Univale.
Instagram: @bob.villela  Medium: bob-villela.medium.com

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