Carioca: lá se foi um multimídia!

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A bicicleta é um veículo incorporado à paisagem urbana de Governador Valadares. Está nas fotos históricas, que revelam para nós como era a cidade do início do século passado e em outras recentes, do nosso tempo.

No dia a dia lá estão elas, disputando espaço nas ruas com os veículos automotores. Cenas cotidianas e, porque não dizer, históricas, se passaram pelos meus olhos, com as bicicletas. Uma delas: o Sebastião Pereira Nunes, o Carioca, pedalando sua bicicleta, carregando na garupa a Dona Selma, sua esposa, sentada de ladinho.

Olha lá, o Carioca! Dizia eu a mim mesmo quando o via.Carioca era amigo do meu pai, o Pipiu, e jogaram juntos no Clube Atlético Pastoril, o “Leão da Baixada”. Jogou também no Esporte Clube Democrata. Não vi o Carioca jogando, mas quem viu diz que ele gostava de arranjar uma confusão.

Habilidoso e driblador nato, gostava de fazer o “João”, a vítima, o “João bobo”, como dizia o jornalista Sandro Moreira sobre as vítimas do craque Mané Garrincha. E o Carioca fazia o que o Chico Buarque canta na letra da música “O Futebol”: “Parafusar algum João na lateral, sim, quando é fatal”. E quem gostava de ser “João”?

Ninguém gostava e ninguém gosta. Aí, o driblado, o humilhado, o tal “João” partia pra cima com o dedo em riste, botava nariz contra nariz. E o Carioca encarava. Tava armada a confusão! Ê, Carioca!

Ele era um ponta esquerda diferente, segundo outro Chico famoso, o Chico Duro, goleador do Democrata. “O Carioca era parecido com o Zagalo, voltava pra buscar jogo e pra ajudar a marcação no meio campo”, conta, lembrando que os dribles e as confusões eram frutos da sua vontade de vencer, vestindo a camisa da Pantera ou do Leão.

Valadarense, ele nasceu aqui em 4 de abril de 1931, filho de um maquinista da Maria Fumaça que circulava na Estrada de Ferro Vitória a Minas, o Seo Júlio Pereira, e da Dona Sinhá, que se chamava Sebastiana. Como era um garoto que ia sempre a Vitória, ES, de trem, tomava um banho de mar, torcia pelo Vasco da Gama e estava sempre antenado com as atualidades brasileiras que chegavam do Rio de Janeiro, ganhou o apelido de “Carioca”.

E o filho da Dona Sinhá e do Seo Júlio, por ser antenado, virou um “multimídia”, numa época em que essa palavra ainda não existia no vocabulário cotidiano. Escrevia bem, falava bem, tinha conteúdo. Jornalista formado na lida diária da Tribuna Fiel e Diário do Rio Doce, Carioca foi colunista social, cronista, repórter esportivo, comentarista no rádio e na TV. E se alguém fosse à missa na Catedral, lá estava ele, fazendo a leitura das epístolas.

Na Rádio Mundo Melhor também apresentava o programa da Hora do Ângelus, fazendo a oração da Ave Maria. Esse lado religioso foi herdado de sua mãe, católica praticante, e de sua esposa, que era sua companheira constante.

A cidade perde um filho ilustre. Lembro-me do Carioca desde criança, quando meu pai me mostrava as fotos do time do Pastoril, apontando com o dedo os seus colegas do time: “Lício, Bitaca, Joel, Coelho, Jota, Djalma, Pão Velho, Jaime, Palheta e Carioca”.

Quase sempre estavam lado a lado, meu pai e o velho Carioca. Quando meu pai ficou doente e inválido, durante longos anos, o Carioca, sempre que me encontrava, antes de dar bom dia, boa tarde ou boa noite, pergunta: “e seu pai?”. Minha mãe, que se chama Elza, lembrou hoje que o Carioca a chamava de “Ângela Maria” e dizia sobre o meu pai: “Ângela Maria, como você foi se casar com esse homem, ele não vale nada…” E meu pai dava risada! E ela também. Sou muito grato ao grande Sebastião Pereira Nunes. Quem ama futebol, hoje está triste, e para mim está sendo difícil escrever essa crônica. Vou encerrá-la dizendo: “muito obrigado, Carioca! Vá com Deus, meu amigo!”

Tim Filho | Jornalista e produtor cultural