Larga de ser bobo e vem comigo

FOTO: Magnific

“Larga de ser boba em vem comigo”, cantava Hyldon desde 1986; tempo em que eu andava com três anos de idade, já conhecia o rio Doce e meu tio Beto já tocava violão nos meus ouvidos miúdos.

Naquele tempo estávamos começando a saborear o fim de um tempo e o início de outro. A constituição cidadã seria promulgada em outubro de 1988, nada será como antes, mas esse já é um verso de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, que habita uma das faixas do melhor álbum da música brasileira; isso seria em 1972, ou seja, a música e a arte antecipam os conflitos que virão.

Apesar de tanta faceirice de nossas canções, e apesar de você, que o Chico Buarque inventou para que pudéssemos lamentar criticamente, é indiscutível que a vida na democracia que acabara de renascer não seria algo simples.  Mas deixemos de coisa, e para cuidarmos da vida, eu gostaria de falar do tempo do agora. E esse tempo vamos chamar de sociedade do conflito.

Esse nome nasce em diálogo com um filósofo sul coreano, Byung-Chul Han, que construiu um termo interessante para falar de agora; diz ele que vivemos um tempo chama do sociedade do cansaço; ele e eu somos herdeiros de uma tradição que gosta de colocar nomes; já chamamos sociedade do risco, sociedade do controle, sociedade líquida e agora eu gostaria de chamar sociedade do conflito.

Pensamos assim, não porque o conflito sejaalguma coisa ruim que devemos destruir. Se isso fosse verdade, nos destruiríamos a nós mesmos. O conflito desta sociedade dialoga diretamente com a democracia que nasceu outro dia em 1988; e no terreno democrático, há alguns elementos inarredáveis, dentre eles, a diversidade, a pluralidade, e, sobretudo, o respeito às mais plurais formas de ser e estar no mundo.

Esse imperativo da vida com o outro faz surgir uma série de fricções sociais, de resistências, ressonâncias; neste rumo é que a sociedade do conflito brota, uma vez que a democracia sem o conflito, perderia seu elemento fundante, a chance de habitação da alteridade que é filha do encontro democrático entre as diferentes formas de sentir o mundo e nele colocar seus corpos.

Assim, a sociedade do conflito é o nome que a própria vida democráticainstitui, na medida em que nela se pode viver de maneira diversificada, e, ao mesmo tempo, reconhecer que o conflito seria a base inicial para a invenção do outro. Nada será como antes, pois, dos encontros nascem conflitos que são oportunidades de outros rumos, ares e viveres.

O conflito e a democracia vivem neste chamado que Hyldon nos ensinou,“ larga de ser boba e vem comigo”, pois, a cada vez que falamos democracia e conflito, dizemos de duas faces, mesmo lance de dados, porém, sempre outra chance, de vida nova, composição de caminhos e linguagens, como são o amor e os convites, faces da sociedade do conflito: larga de ser bobo, porque de boba a linguagem não tem nada…

(*) Coordenador e Professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades – GECON. Professor do curso de Direito e do Mestrado em Gestão Integrada do Território – GIT, da Univale.

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