Nos dois últimos artigos, foi abordado o tema “luzes de Valadares”. Entre essas luzes estavam as mágicas placas de néon, muitas delas fixadas em grandes cinemas localizados nas ruas centrais da cidade. Esse tipo de cinema não existe mais. A partir dessa visão, restou o questionamento sobre parte da história dos cinemas valadarenses, que é contada aqui.
Um “slogan” afirma que “cinema é a maior diversão”; faz sentido. Apesar de as grandes salas terem migrado de espaço, da rua para os shoppings, a sensação de bem-estar ao frequentar um atual é a mesma. Em função da tecnologia, estão cada vez mais sofisticadas, com experiências imersivas e muito conforto. As telas são gigantes — do teto ao chão —, projeção a laser, som tridimensional, poltronas em couro reclináveis que tremem e simulam efeitos físicos, totens para compra de ingressos e aplicativos. Concorre com outra opção comum, que é assistir a filmes em plataformas de “streaming”, como Netflix.
Até a década de 80, os filmes ganhadores de um Oscar provocavam filas que viravam quarteirões. Era a época do escurinho no cinema, que tanto namoro, noivado e casamento embalou. O cinema de rua desapareceu. Mas, como em qualquer assunto, Valadares tem histórias que são cenas de cinema. E o historiador amador João Rosado é a memória viva dessa parte. Ele narra como o cinema foi introduzido aqui, os principais empreendedores, as primeiras salas etc.
Segundo Rosado, o primeiro cinema da então Figueira do Rio Doce surgiu por volta de 1930; pertenceu a um comerciante conhecido por “Sr. Poubel”. Ficava na Prudente de Morais, muito próximo à 1ª Igreja Presbiteriana. O sr. José “Juca” Cordeiro foi seu primeiro operador.

Já no início da década de 1940, chegou a GV o Sr. Sotero Inácio Ramos, que construiu o CINE GUARANI, localizado na rua Prudente de Morais, entre a Praça da Bíblia e a Peçanha, confrontando aos fundos com a Refrigeração Polar, que fica em frente à Praça dos Pioneiros. O GUARANI não possuía cadeiras, mas bancos semelhantes aos de igreja. Antes do início das sessões, a população era avisada através do som de uma sirene. Eram os tempos de seriados de Flash Gordon, de “cowboys” como Hopalong Cassidy e comediantes como Harold Lloyd.
A propaganda dos filmes era feita através de cavaletes colocados nas principais esquinas. Sotero Ramos foi um empreendedor nato no ramo cinematográfico. No início dos anos 50, instalou o CINE IMPERIAL, na Israel Pinheiro, esquina com Barão do Rio Branco, onde está localizado hoje o Edifício Gil Pacheco. O início da sessão era sempre precedido de um ritual. A abertura da cortina era feita através de um puxador manual, juntamente com a música “Toreador de Andaluzia” e de um jogo de luzes que ia se apagando aos poucos. Segundo Rosado, até hoje ele guarda em sua memória esse som, que era o prefixo do IMPERIAL. Dado o sinal do início da sessão, a garotada fazia a festa com gritos e assobios.
Já em meados da década de 1950, os Srs. Waldemar Rodrigues de Mello e Afonso Bretas Sobrinho construíram o CINE E TEATRO IDEAL, localizado na Av. Minas Gerais, onde estão hoje as Lojas Americanas. Em seu palco, apresentaram-se cantores de prestígio, como Vicente Celestino e Jararaca e Ratinho. Já o artista Rodolfo Mayer encenou a peça teatral de Pedro Bloch, “As Mãos de Eurídice”. A primeira rádio AM de Governador Valadares, a Rádio Educadora do Rio Doce, foi inaugurada e funcionou por vários anos naquele cine-teatro.
Ali foram revelados locutores de talento, como Ulisses Dias, Fenelon Humberto, Clarisdon Félix e o cronista Jarbas de Oliveira. Da sacada daquele imponente prédio, o presidente Getúlio Vargas (1883–1954) fez discurso de campanha, acompanhado por seu fiel escudeiro Gregório Fortunato. O IDEAL foi o primeiro cinema da região a inaugurar o sistema de projeção em tela grande — “Cinemascope”. Aquela “casa” imortalizou a história de porteiros como Quim-Quim, Brandão, Orestes e do operador de cinema conhecido pela alcunha de Pitomba… Continua na próxima coluna, não perca!
(*) Crisolino Filho é escritor, advogado e bibliotecário | E-mail: crisffiadv@gmail.com | WhatsApp: (33) 9.8807-1877 | Escreve nesse espaço quinzenalmente
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