Valadares avançou — e isso precisa ser reconhecido. O município recuperou lagoas que antes estavam abandonadas. São conquistas importantes, fruto de investimento público e de um esforço técnico que não pode ser ignorado. Ainda assim, basta um passeio pelas margens da lagoa do bairro Jardim Pérola para perceber que há um problema que nenhuma máquina resolve sozinha: a falta de bom senso.
É contraditório ver áreas naturais recuperadas convivendo com cadeiras velhas, restos de entulho, sacolas plásticas e garrafas pet jogadas sem qualquer critério. A cena é simbólica e triste ao mesmo tempo: jacarés e outros animais dividem espaço com lixo descartado de forma irresponsável, como se a natureza fosse um depósito informal à espera do próximo caminhão.

Não se trata apenas de uma questão ambiental, mas também de cidadania. O descarte irregular entope galerias, contamina a água, favorece a proliferação de insetos e compromete o trabalho de recuperação feito com dinheiro público. Quando alguém abandona um móvel na rua ou joga lixo na margem de uma lagoa, transfere para toda a cidade o custo da própria irresponsabilidade.
É preciso dizer com clareza: políticas públicas existem, mas não funcionam sem a colaboração da população. Preservação ambiental só acontece quando cada morador entende que a cidade também é extensão da própria casa.
Valadares não pode aceitar como normal a poluição de suas lagoas e ruas. O rio Doce e os espelhos d’água urbanos são patrimônios coletivos, não terrenos sem dono. Enquanto a falta de consciência continuar falando mais alto, o avanço conquistado será sempre parcial — e a cidade seguirá presa entre o progresso que tenta construir e o lixo que insiste em produzir.
(*) Jornalista
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