Há ambientes institucionais criados para o estudo, o debate qualificado e a construção coletiva do conhecimento. São espaços que, por sua própria natureza, deveriam estar protegidos de disputas de poder, interesses pessoais e jogos políticos.
Não porque a política seja indesejável — ao contrário —, mas porque ela possui locais próprios, legítimos e necessários para existir. Misturá-la a ambientes técnicos, que deveriam permanecer afastados desse tipo de dinâmica, não fortalece o debate; pelo contrário, corrompe sua finalidade.
O que se observa, porém, é um fenômeno cada vez mais recorrente: a substituição do compromisso institucional pelo oportunismo. A técnica cede espaço ao ego. A hierarquia se dilui conforme a conveniência. O diálogo passa a ser instrumentalizado, e decisões são tomadas longe da transparência, muitas vezes antes mesmo que os responsáveis formais consigam exercer, de fato, sua função.
Nesse cenário, liderar deixa de ser um exercício de construção coletiva e passa a se tornar um teste constante de resistência emocional.
A situação se agrava quando essa liderança é exercida por pessoas jovens e, especialmente, por mulheres. Ainda persiste uma cultura que confunde juventude com fragilidade. Em vez de apoio, surgem tentativas de tutela. Em vez de cooperação, disputas silenciosas. O respeito à hierarquia deixa de ser um princípio e passa a ser aplicado de forma seletiva.
Outro traço preocupante dessas dinâmicas é a normalização da sobrecarga. Quando o trabalho é realizado com seriedade, frequentemente se torna invisível. Quando feito em silêncio, passa a ser explorado. A colaboração dá lugar à apropriação e, não raras vezes, o esforço de poucos sustenta o protagonismo de muitos.
O resultado é um ambiente institucional adoecido, no qual decisões deixam de ser técnicas, eventos deixam de ser coletivos e cargos deixam de representar responsabilidade para se tornarem instrumentos de projeção pessoal. Tudo isso é embalado por um discurso formal que prega a ética, enquanto a prática cotidiana aponta para o oposto.
É importante dizer com clareza: isso não é política.
Política é debate público, divergência aberta e construção democrática. Politicagem, por outro lado, é o uso estratégico de estruturas institucionais para atender a interesses privados. Confundir essas duas coisas não apenas empobrece o debate político, como também compromete a credibilidade das próprias instituições.
Há momentos em que a decisão mais responsável não é permanecer, mas sair. Não por fragilidade, e sim por lucidez. Preservar
a própria integridade emocional e profissional também é um ato ético. Renunciar, nesses casos, não significa desistir, mas recusar-se a validar práticas que contradizem os valores que deveriam sustentar o espaço institucional.
Instituições fortes não temem lideranças jovens, nem mulheres em posições de comando. Tampouco dependem de jogos de bastidores para funcionar. Elas se constroem com regras claras, respeito à hierarquia, transparência nas decisões e, sobretudo, coerência entre discurso e prática.
Enquanto a política não ocupar seus espaços próprios e enquanto ambientes técnicos continuarem sendo instrumentalizados por interesses pessoais, continuaremos confundindo debate com disputa, liderança com conveniência e participação com oportunismo.
E o custo disso não é individual.
É institucional.
(*) Advogada, especialista em Direito do Agronegócio. Pós-graduanda em Direito Civil e Empresarial e sucessora no campo, vivenciando na prática os desafios da gestão, da sucessão familiar e da profissionalização das atividades rural.
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