Otávio Coelho de Magalhães, da Figueira do Rio Doce aos dias de hoje

Hospitaleiro, sr. Otávio recebeu a equipe de reportagem do DIÁRIO DO RIO DOCE em sua casa no bairro Grã Duquesa. FOTO: Eduardo Lima

Ele foi de tudo um pouco. Um verdadeiro pioneiro em Governador Valadares. Nascido em Virginópolis, chegou ainda menino ao pequeno e promissor povoado de Figueira do Rio Doce. Foi dono de bar, de posto de combustível, vereador por cinco mandatos, secretário municipal de Obras, incentivou a criação da Banda Lira 30 de Janeiro, fundou o time do Cruzeirinho e ainda teve tempo para trabalhar na zona boêmia da cidade. Otávio Coelho de Magalhães, que no próximo dia 21 completará 100 anos de idade, ainda está lúcido e cheio de história pra contar. Um pioneiro que a memória de Valadares busca nas diversas fases da sua história.

Hospitaleiro, o sr. Otávio recebeu a equipe de reportagem do DIÁRIO DO RIO DOCE em sua casa, no bairro Grã Duquesa, com bom humor e contando “causos” de muitos anos. Conversou a respeito dos familiares, dos trabalhos que já fez e da vida política. Mostrou, com orgulho, as rugas que carrega no rosto, ao falar dos primeiros anos após a emancipação política de Governador Valadares.

Viúvo, pai de oito filhos, mais de 30 netos, seis bisnetos e um trineto, o sr. Otávio contou como foram seus primeiros passos quando chegou por aqui. “Quando saí de Virginópolis para cá tinha só 14 anos. Em 1934, cheguei a Valadares, que era então Figueira do Rio Doce. Levei três dias a cavalo para chegar aqui. Vim acompanhado de famílias de retirantes. Aqui tinha mais ou menos quatro mil habitantes, era um povoado que estava crescendo a cada dia. Eu vim trabalhar com meu irmão, Geraldo, que estava aqui havia dois anos. Ele tinha um comércio na rua São Paulo, lugar onde era o antigo torresmo, zona boêmia da cidade”, conta. Não demorou muito tempo para o jovem sair do bar do irmão e dar vida ao seu próprio negócio. “Instalei um bar na avenida Minas Gerais. Era um bar grande, bastante frequentado. O prefeito Dilermando Rodrigues de Melo tomava cerveja lá, de vez em quando. Infelizmente, entrei no negócio numa época de recessão econômica. O Dutra havia sido eleito presidente e toda semana a mercadoria valia menos. Foram quatro anos de sacrifício, até vender para o Chiquinho Coelho, pai de Zezé Campos. Só voltei a trabalhar com bar muito tempo depois, na rua Israel Pinheiro, o Bar Esporte”, contou.

Fundação do Cruzeirinho

No Bar Esporte o sr. Otávio recebia muitos boleiros nos finais de semana. Por conta disso, juntamente com alguns amigos, fundou em 1948 o Cruzeiro Esporte Clube, mais conhecido como Cruzeirinho, cujo campo fica na parte baixa da avenida Brasil, no Centro. Na época, o clube disputava atenção com os grandes Democrata e Pastoril. “Fui o primeiro presidente do Cruzeiro em Valadares. O clube era muito querido, tinha muitos torcedores. Nós fizemos na época um convênio com o Colégio Ibituruna e construímos aquele campo ali atrás do colégio; era uma capoeirazinha. Nós muramos o terreno, fizemos o campo e arquibancada de madeira, bem grande. Dificilmente a gente perdia para o Democrata. Toda vez era jogo duro. Já com o Pastoril era mais difícil de jogar. Tinha os melhores jogadores da cidade, levava tudo”, lembra.

Sobre a carreira política, o sr. Otávio fez questão de ressaltar o prestígio que teve nos primeiros anos do Poder Legislativo no município. Foi vereador por cinco mandatos, de 1950 a 1970. “Nunca gastei dinheiro com campanha. Meus eleitores eram fiéis, porque eu procurava fazer o bem na cidade. Nomes como Xisto Rodrigues, Omar Magalhães, Milton Cunha, Jean Mifarreg, Parajara dos Santos e outros, que agora não vêm à cabeça, representavam com dignidade a nossa cidade. Naquele tempo, vereador não tinha remuneração; era um trabalho de serviço público. Deveria ser assim até hoje”, disse.

Durante quatro anos, Otávio esteve à frente da Secretaria de Obras do município, na gestão do prefeito Hermírio Gomes da Silva, considerado por ele o melhor prefeito que Valadares já teve. “Eu acompanhava de perto o desenvolvimento das obras na cidade e nos distritos. Hermírio Gomes foi um nome que Valadares nunca fará justiça a ele, como prefeito, cidadão e ser humano. Um prefeito visionário, construiu muita coisa. Dificilmente existirá outro prefeito como ele. Lá no Semov, quando dava 17 horas, todo mundo largava o serviço e o Hermírio me chamava para ir de caminhão visitar os distritos e ajudar o povo”, contou.

Longe da vida política e do esporte, sr. Otávio é apenas um observador, sabe de tudo que acontece na cidade. Hoje só possui o imóvel do posto de combustível na Rua Marechal Floriano, o antigo posto Tupi. “Eu sempre achei que Valadares iria crescer muito, mas não imaginava que seria tão rápido. Depois que acabaram as extrações de minério e madeira, que eram a força da nossa economia, os pecuaristas ficaram no poder, com pouca oportunidade de emprego para a população, sem indústrias e o comércio longe de ser como era antes. Mesmo assim, a cidade encontrou seu caminho e vai progredindo. O imóvel do meu antigo posto continua sendo meu. É preciso dizer que sou muito grato à vida que tenho. Perdi minha esposa e companheira há faz tempo, mas tenho filhos e netos maravilhosos, bem-sucedidos, graças a Deus. Só tenho que agradecer e pedir a Deus para abençoar a minha família”, concluiu.

por Eduardo Lima | eduardolima@drd.com.br