Os reflexos da globalização no agronegócio brasileiro

Gostaria de compartilhar com os queridos leitores um artigo do engenheiro-agrônomo Benjamin Salles Duarte, sobre os reflexos da globalização no setor da agropecuária. A tese de um mundo sem fronteiras geoeconômicas para o comércio de tecnologias, produtos e serviços, influenciando até a formulação de políticas públicas dos países envolvidos entre as economias avançadas, emergentes e nações mais pobres, que colecionam mais problemas do que soluções, já sinaliza controvérsias consideráveis capitaneadas pelos Estados Unidos, China e União Europeia.

Nos EUA, a política externa endurece o jogo com rompimentos de acordos internacionais e avançam as sanções econômicas sobre diversos países, como a Rússia, Cuba (histórica), Irã, Coreia do Norte e China, que consolidou um PIB de US$ 11 trilhões em 2016 (Banco Mundial), e a Grã Bretanha, que está fora definitivamente da União Europeia, sendo uma questão de tempo. O agronegócio brasileiro poderá exportar US$ 100 bilhões em 2018, e passa por um constante pente-fino externo nas exportações para mais de 160 países. As disputas comerciais entre os EUA e a China, as duas mais poderosas economias mundiais, e onde os PIB’s somados atingem US$ 29,03 trilhões ou 58,9% dos US$ 49,03 trilhões, que é a soma dos PIB’s das 10 maiores economias do mundo, em 2016, devem afetar todos os países e desempenhos mundiais numa perspectiva de tempo, pois ninguém escapará de seus múltiplos reflexos negativos econômicos e sociais.

De janeiro a outubro de 2018, o superávit nas exportações do agronegócio brasileiro foi de US$ 75,70 bilhões, revelando seu dinamismo externo e aquecendo internamente as economias regionais nos cenários da produção para abastecer e exportar, no que também dependem dos ganhos com a agricultura irrigada como conceito e prática de campo.

O Brasil, apesar dos avanços e sendo a 9ª maior economia do mundo, por enquanto, e o 2º maior produtor de alimentos, posição conquistada nos últimos 45 anos, não pode colecionar problemas, postergar novas soluções estratégicas, reduzir os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. E mais: deve qualificar o ensino em todas as suas etapas de aprendizagem, entre outras decisões indispensáveis. Porém, noutro contexto, persistem 11,8 milhões de desempregados, portanto, sem carteira assinada, os quais deixam de receber 13 salários mínimos anuais ou R$ 146,3 bilhões, dinheiro não circulante na economia brasileira e seu corolário de consequências na vida familiar, e na compra de tecnologias, produtos e serviços.

Além disso, nessa limitada panorâmica, vale lembrar que pesquisa da Embrapa comparando o desempenho da produção brasileira de grãos de 1995/96 com a de 2005/06 revelou as seguintes variáveis percentuais: trabalho 31,3%; terra, 18,1%; e tecnologia, 50,6%; evoluindo para: trabalho, 22,3%; terra, 9,6%; e tecnologia, 68,1%. O Censo Agropecuário 2017, se considerar essa análise histórica com dados mais recentes, poderá revelar outros percentuais, a depender também dos mercados e da adoção de tecnologias nas culturas e criações nos últimos 11 anos. Ainda segundo a Embrapa, na pesquisa os “Três problemas da agricultura brasileira”, dos 4,4 milhões de estabelecimentos recenseados em 2006, apenas 500 mil, ou 11,4% do total, geraram 86,65% da renda bruta naquele ano. Renda bruta = produção vendida, autoconsumo e indústria caseira. Pode-se admitir que a tese da globalização, apesar dos desencontros havidos e por haver, promoverá a concorrência entre os países cada vez mais acirrada e atenta à adoção de inovações nos sistemas agroalimentares e agroflorestais nesse viger do século XXI, agregando também as altas taxas de urbanização e crescente consumo, se houver melhor distribuição da renda per capita.

Marcelo de Aquino Brito Lima | * Secretário de Meio Ambiente, Agricultura e Abastecimento de Governador Valadares