Nas águas do Senhor

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FOTO: Distribuição.

Ocupações modernas impedem que se dê maior importância a certas questões que seriam dignas de notável atenção. A mais relevante delas, e poucos se dão conta, é a busca incessante de maior longevidade média dos homens. Há poucos anos atrás eles mal alcançavam os 52. Na idade média, chegar a 40/45 era milagre; só alguns poucos privilegiados. Ainda hoje, na Amazônia, é por aí. Os primitivos índios, conhecidos como ianomâmi, dificilmente superam dos 32/35. Mulher entre eles, com mais que isso, se o marido morrer e não tiver quem as cuide, é solta na mata, para onça comer.

Porém, graças a alguns avanços científicos e às técnicas preventivas para a saúde humana na atual civilização, lá vamos caminhando rápido para uma boa média, 70/75 (tô saindo dela). Por isso mesmo, estamos custando mais a morrer e vamos quebrando o arcaico sistema previdenciário do país. Entretanto, mesmo com as falhas do Estado em se reorganizar, para o melhor trato aos idosos, alguns recursos de estender a vida sofreram espetaculares avanços, sem merecer de nossa parte reconhecimento ou respeito.

Já não pago ônibus, e ainda tenho direitos especiais em filas e outros privilégios. Mas, mesmo assim, continuo novo, recordando bem que, quando criança, água era na fonte, na cisterna, na cacimba, no pote ou na cabaça. Não havia sequer esse negócio de ferver, senão esquentava a dita e virava purgante ao ser ingerida. Não era tão ruim, mas a cada região sempre um paladar diferente, algumas chegando a salobras de doerem. Mais complicado era em construir cidades, fora dos planos, lá bem dentro do buraco no vale, para ficarem o mais próximo possível da água. Eu não sei não, mas acho que ainda vi água sendo distribuída em lombo de burro. Graças a Deus, logo logo a tecnologia e a ciência vieram em meu socorro e dos homens e, por que não, da própria vida.

Ao criarem os serviços bombeados e canalizados, com entrega a domicílio e nas torneiras, perceberam que, já que tinham de limpá-la, poderiam, também, tratá-la com higiene e adicionar ingredientes benfazejos à saúde. Nessa mirabolante engenharia sanitária e altamente preventiva, até dentes com a fluoração melhoraram seu proveito e já duram mais. A meninada agora fica até mais tempo sem cáries.

Água, além de imprescindível, necessária e essencial, também se tornou um saudável conforto, que, por sua facilidade, é pouco notado por quem a recebe. A gente só lembra e reclama quando o gosto fica ruim ou o cloro está “brabo”.

Ultimamente, entretanto, estão nos obrigando a lembrar dela a todo tempo. Transformaram o indispensável em objeto de agressão e crime. Todos, invariavelmente todos, jogam-lhes dejetos e lixos outros. Como sofre nosso rio Doce!!!!

Bem verdade, a criação do órgão SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) nos veio nas heranças dos colegas americanos da Fundação Rockfeller. Nas dificuldades de sua expansão e nas políticas por ele executadas, não muito boas para as carências populares, por ser uma fundação privada, a administração municipal levou praticamente cinco anos, mas o tomou em juízo para o poder público.

Discutível essa passagem e como se continuou autônomo, proporcionando tantas facilidades gerenciais, embora há que se reconhecer que o SAAE tenha primado e sempre conseguido qualidade em seus serviços. Isso, apesar de os humanos, além de seus próprios rejeitos, +ou- 1.500.000 de kg de cocô por dia (ninguém gosta nem de se lembrar disso) e outros, também agora os produzidos por empresas que se tornaram criminosas aos sabores da impunidade, chegando a matar nossas fontes.

Água é, sem dúvida, mais para ser preservada que até comercializada. Por isso, requer inimagináveis cuidados e atenções, até mesmo carinho. Apesar de o corpo humano ser composto por quase 70% de água, acredito ainda sobrar espaço para cabeça e cérebro, de melhor iniciativa, inventiva e responsabilidade para com a coisa da vida e também Divina.

José Altino Machado | E-mail: zealtino@uol.com.br