A linha da vida

573

Verônica chegou… linda, maravilhosa. Também pudera, quem nasce de quem nós amamos sempre é bonito, independente até de não sê-lo. O amor faz coisas e constrói ternuras.

Ela é toda excepcional por ser minha primeira bisneta. Tataraneta do velho coronel Altino e dona Aurita, neta de Rachel, que é minha filha e filha de meu neto que é o Caio. Rachel, de avó, está na beira do berço babando a menina toda. Assistiu ao parto e quase toma o lugar do médico, de tanta excitação. Não sei se bom ou ruim, mas levou até seu filho, rapa de tacho, com quatorze anos para assistir. O menino quase sai correndo porta a fora quando coroou. Coitado… Chorou que só.

É a vida que segue. Tenho mesmo sorte de ter não só conhecido como ter convivido com o trisavô da Verônica, pai do papai, um velho bom que só. Ele tinha a letra mais bonita que eu jamais vira ou vi em minha vida. Ele era do tempo em que os livros de contabilidade, atas, decretos e outros instrumentos cartoriais eram escritos a mão. Em sua época, inocente, mas dourada geração, a invenção brasileira de Pernambuco ainda não estava muito difundida, a máquina de “datilographia”.

E isso aí merece parênteses e reflexão; não sendo requerida patente da dita cuja ou não lhe cuidando melhor, um norte-americano que zoneava por lá levou a idéia e a própria. Estava criada a Remington. Aumentando mais a reflexão e tamanho dos parênteses, para que se possa ir entendendo o Brasil e suas gerações, aconteceram outras. Por exemplo, a caixa de marcha hidramática, conhecida hoje também como automática, foi brasileira, uma maravilhosa invenção. Não se patenteou, GM levou. Isso para não dizer dos aviões, radiografia, coração artificial e tantas outras coisas. Mesmo nos orgulhando com as inventivas dessas gerações espetaculares, sequer delas nos lembramos.

Mas, do vovô, continuo lembrando. Vovô Machado, como todos o conheciam, pai a seu pedido o trouxe para morar na nossa fazenda do Cedro, onde ficou por anos a fio, permitindo-nos desfrutar de seus cuidados, retribuindo-lhe em atenções e carinhos. Quando para lá íamos, pai, ao fazer o rancho, também corria a todas as livrarias, pois o negócio do vovô era leitura. Devorava. E com ele aprendi a prestar atenção a ensinamentos literários. Romance, policial, drama, religião. Fosse o que fosse, o negócio dele era ler; depois meu, e por isso até a conversa soava diferente naquele lugar onde nós estávamos, uma fazenda de criação de bois.

Lá pelos 14, 15 anos, eu, por ali fumando escondido dele e de pai, eis que de repente recebi um cutucão e ouvi a voz do meu avô dizer: “Me dá um irmão desse aí, que só tenho o palhão”. Acabei por negociar com ele mais uns dois irmãos daquele com a condição de que não contasse para o meu pai que eu já estava no vício.

Quanto a minha própria geração, pós-Segunda Guerra, geração que agora se acaba, nunca nos permitiu fumar ou beber, dizer palavrões na presença deles, avós e pais. Por sinal, vim a tomar um copo de cerveja com meu pai presente apenas com mais de 32 anos. Aos 21 éramos meninos para estar em meio a conversa de adultos, e velhos para cometer criancices. Hoje dizem que isso é besteira. Sei não… Era uma época em que homem era homem, muié era muié, revólver era Smith, caminhão Chevrolet e geladeira Frigidaire. Se mais alguém vivo dessa geração perguntem… Respeitadores, não complicávamos nunca a vida das moçoilas. Jamais, a zona boêmia era logo ali na Rua 50. Mas deixo claro que não éramos melhores do que os de hoje, apenas diferentes.

Verônica, ah a Verônica, que eu viva mais um pouco para que ela conheça seu bisavô como conheci o meu vô, com prazer e muito amor. Embora eu seja descrente da geração de hoje, sejam lá quantos forem e quantos juntos estiverem, se perguntados se recordam os nomes de seus pares bisavós, a resposta quase unânime será NÃO.

Que Deus a faça um pouco diferente e que possa pelo menos responder: “Ah, meu bisavô, ouvi muito falar dele, percorreu uma longa linha da vida, seis”…

José Altino Machado | zealtino@uol.com.br