Essa é uma pergunta que escuto com frequência: por que não construímos mais como antigamente, com tantos detalhes, ornamentos e fachadas elaboradas? Quando olhamos para edifícios históricos, é inevitável a comparação e a sensação de que havia mais arte, mais cuidado e mais beleza. Mas a resposta envolve muito mais do que estética. Ela passa por transformações históricas, culturais e, principalmente, econômicas.
A partir do século XX, especialmente após as guerras mundiais, a lógica econômica e social da construção se transformou profundamente. As cidades cresceram de forma acelerada, a demanda por moradia aumentou e o tempo passou a ser um dos principais fatores dentro do processo construtivo. O custo da mão de obra especializada se elevou, e a industrialização trouxe novos materiais e tecnologias que priorizavam eficiência, repetição e racionalização de processos.
Além disso, o pensamento arquitetônico também passou por uma ruptura importante. O movimento moderno rejeitou o excesso de ornamentação e passou a defender a funcionalidade, a estrutura aparente e a honestidade dos materiais. A ideia de que menos poderia ser mais ganhou força não apenas como conceito estético, mas também como resposta às necessidades econômicas e sociais de um mundo que precisava construir mais, em menos tempo e com menor custo.
Hoje, quando observamos construções mais limpas e com menos detalhes, isso não significa necessariamente ausência de qualidade ou sensibilidade. Significa que estamos inseridos em outra lógica histórica. Construímos dentro de um mercado imobiliário competitivo, com prazos reduzidos, custos elevados e forte carga tributária. Elementos decorativos demandam mão de obra especializada, tempo de execução e investimentos que, muitas vezes, não são compatíveis com o orçamento das obras contemporâneas.
É importante lembrar também que a arquitetura histórica que admiramos não representava a realidade da maior parte da população. Esses edifícios eram, em sua maioria, institucionais, religiosos ou pertencentes à elite econômica. Enquanto isso, grande parte das moradias populares da época também era simples e funcional. A memória coletiva tende a preservar os ícones arquitetônicos, e não aquilo que era comum.
Talvez a reflexão mais importante não seja por que não construímos mais como antigamente, mas como podemos, dentro da realidade atual, resgatar identidade, significado e qualidade nos projetos contemporâneos. Porque arquitetura nunca foi apenas sobre ornamentos. Arquitetura sempre foi sobre contar a história do tempo em que ela é construída.
(*) Arquiteta e urbanista | Instagram: @marianatorresarq | Telefone: (33) 99914-9198
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